Nos álbuns do Pink Floyd “The Wall” e “The Final Cut“, o eterno gênio floydiano Roger Waters partira para uma espécie de auto-terapia, compartilhando as questões profundas eclodidas de seu inconsciente, estancando todo o pus das feridas ocasionadas pela perda de seu pai na batalha de Ânzio, território italiano, durante a Segunda Grande Guerra.
A canção “When the Tigers Broke Free” pertence ao contexto do álbum “The Wall” (1979), mas acabou ficando de fora deste, tendo aparecido apenas no filme homônimo em 1982 e no relançamento de “The Final Cut” (1983) em CD.
Nela, sentimos Waters como se estivesse numa sessão de hipnose psicanalítica, onde ele volta no tempo e narra os fatos acompanhados de dor, na visão e na pele do pequeno Roger Waters, sentindo a profunda ausência de seu pai e nitidamente culpando o Governo da Rainha bretã e seu Alto Comando militar, além de todo o horror da guerra em sí, por tirarem dele Eric Fletcher Waters, seu pai, morto a serviço dos Aliados em 1944.
Acompanhe nas linhas abaixo a letra acompanhada da tradução, verso a verso:
“It was just before dawn
Foi pouco antes do amanhecer
One miserable morning in black forty-four
Uma miserável manhã no negro ano de 1944
When the Forward Commander was told to sit tight
Quando o comandante disse para ser paciente
When he asked that his men be withdrawn
Quando ele pediu que seus homens batessem em retirada
And the Generals gave thanks
E os Generais agradeceram
As the other ranks
Porque as outras fileiras
Held back the enemy tanks for a while
Seguraram os tanques inimigos por um tempo
And the Anzio Bridgehead was held for the price
E a Ponte de Anzio pagou o preçoOf a few hundred ordinary lives
De algumas centenas de vidas comuns
And kind old King George
E o bom velho Rei George
Sent Mother a note
Enviou à Mãe uma nota
When he heard that Father was gone
Quando soube que o pai tinha partido
It was, I recall, in the form of a scroll
Foi, eu recordo, sob a forma de um pergaminho
With gold leaf and all
Com folha de ouro e tudo mais
And I found it one day
E eu achei um dia
In a drawer of old photographs
Em uma gaveta de velhas fotografias
Hidden awayEscondido
And my eyes still grow damp
E meus olhos ainda lacrimejam
To remember His Majesty
Para lembrar Sua Majestade
Signed with his own rubber stamp
Assinado com seu próprio carimbo
It was dark all around
Estava tudo escuro
There was frost in the ground
Havia neve no chão
When the tigers broke free
Quando os tigres se libertaram
And no one survived
E ninguém sobreviveu
From the Royal Fusiliers Company CD
o Companhia C de Fuzileiros Reais
They were all left behind
Eles foram todos deixados para trás
Most of them dead
A maioria deles mortosThe rest of them dying
O resto deles morrendo
And that’s how the High Command took my Daddy from me
E foi assim que o Alto Comando tirou meu pai de mim”
Roger Waters escrevera incansavelmente sobre os males do belicismo, da intransigência política, conflitos entre nações, Guerra Fria e etc. em álbuns e canções tanto no Pink Floyd, tanto em carreira solo, como tem mostrado presentemente na sua Us + Them Tour, hoje causando enorme polêmica, talvez a maior de sua carreira, sobretudo no Brasil, por onde está passando esse mês.
Porém, em nenhuma outra canção, apesar de em inúmeras delas, sentirmos um grande conteúdo auto-biográfico, sentimos isso de forma integral como em “When the Tigers Broke Free“, onde Waters se coloca inteiramente seus “sentimentos nús“, como ele o diria na faixa-título de “The Final Cut”. Apenas em “Another Brick in the Wall (part I)“, talvez, ele tenha chegado o mais próximo disto, também demonstrando sentir a falta do pai, porém como um já homem adulto com lembranças do vazio deixado.
O inconsciente humano não pondera e a nada mascara, ele apenas sente e grita e cobra, primitivamente, por suas vicissitudes mais profundas.
Em “When the Tigers Broke Free“, podemos imaginar o menino George Roger Waters, através de seu inconsciente, clamando pela volta de seu pai em frente as portões do Palácio de Buckingham.

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