Oriundo da ideia do líder do grupo Roger Waters de fazer uma espécie de continuação de sua bem sucedida ópera-rock, “The Wall“, o extremo e conturbado “The Final Cut” chegava como um réquiem para o pós guerra, especialmente para o pós morte de seu pai, Eric Fletcher Waters, morto nos bombardeios em Ânzio, região da Itália, durante a Segunda Grande Guerra.
Como Roger Waters sempre bem o faz, “The Final Cut” é pertinente também ao seu tempo atual, disparando ácidas farpas à participação bretã na Guerra das Malvinas e apolítica internacional da primeira-ministra Margaret Tatcher, recorrentemente chamada dentro das letras do disco como “Maggie”.
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“The Final Cut” foi como um casal fazer um filho em meio a uma crise apical, fadado a dar brigas extremas, e deu.
O guitarrista David Gilmour, dotado de extremo feeling musical, há tempos vinha pregando um retorno do grupo às canções mais melódicas, com maior prevalecência do instrumental. Imaginem o seu drama ao se deparar com este projeto wateriano.
Consta que Gilmour sugeriu a Waters que esperasse para que ele compusesse mais músicas, aumentando a base instrumental do disco, ideia refutada por Roger.
O clima ficou tão pesado e insustentável que ambos gravavam suas partes em momentos separados no estúdio. As composições são integralmente de Roger Waters que também canta todas, excetuando-se a “pauleira” do disco, “Not Now John“, única música em que a voz de David Gilmour se faz ouvir, juntamente com a de Roger Waters.
Waters, que nunca fora bobo nem nada, sempre convocou reforços de peso para suprir os músicos do Pink Floyd, como o então recém-demitido por ele, o tecladista Richard Wright, no disco substituído por Andy Bown (Status Quo e Peter Frampton) e o solene maestro Michael Kamen, responsável também pela condução orquestral contida no álbum.
Pois Roger Waters precisava fazer “The Final”Cut“. Foi trabalho onde ele definitivamente estabeleceu a sua assinatura, que começara a se formar em “Animals“, ganhou força extrema em “The Wall“, mas no “Corte Final“, mostrou um modo peculiar de compor e cantar, que o acompanharia na sequência de sua carreira solo e o identificaria com seus fãs.
“The Final Cut” é emocionante. Ele flui denso e ansioso, como uma montanha russa de canto e acordes. Sente-se isso já no seu princípio, “The Post War Dream“, que abre com versos que arrisco dizer, são os mais pesados e traduz toda a dor wateriana sobre a perda de seu pai:
:”Tell me true, tell me why, was Jesus crucified? Is it for this that Daddy died?”
“Diga-me a verdade, diga-me porque Jesus foi crucificado?Foi por isso que meu pai morreu?”
…E culmina num brado e o grupo entra com o instrumental e o solo de guitarra de David Gilmour, tensionando agradavelmente os nervos do ouvinte.
O mesmo ocorre nas seguintes “Your Possible Pasts“, “One of the Few“, “When the Tigers Broke Free” (canção belíssima, excluída na versão vinil do disco em 1982, contida apenas em single e no filme “The Wall, foi inserida no lançamento da edição digital de 2004) e “The Hero’s Return“.
Chegamos a uma das mais belas canções do Pink Floyd: “The Gunner’s Dream” nos traz a linda história do sonho do fuzileiro, que como todos, sonha com seu regresso e retorno aos braços da amada, mas muitos (inclusive o pai de Waters) sucumbem e não conseguem.
Como um brinde de luxo, a canção nos dá o sensacional solo de saxofone do músico convidado, o saudoso Raphael Ravenscroft, qe entra mesclando seu instrumento com o grito neuro-magoado de Waters.
O lado A termina com o tema paranoia em foco na quieta e angustiada “Paranoid Eyes“.
Começando o lado B do disco, a crítica wateriana À Dama de Ferro vem com tudo na curtinha de nome grande, mas afiada “Get Your Filthy Hands Off My Desert” e na sequência, outra música que aponto como uma das melhores do álbum e uma das grandes do Pink Floyd: “The Fletcher Memorial Home“, que contem os versos sarcástico-cítricos waterianos:
“They can polish their medals and sharpen theirSmiles and amuse themselves playing games for awhileBoom boom, bang bang, lie down you’re dead”Será que eles esperam que a gente os trate com algum respeito?Eles podem polir as suas medalhas e afiar os seussorrisos e se entreterem jogando jogos por algum tempoBoom boom, bang bang, deite você está morto”
E mais adiante, a faixa-título, onde Waters nos remete a uma temática recorrente desde os tempos de “Atom Herat Mother“: “se eu enlouquecer e perder o controle, ainda serei aceito?” Especialmente no tocante aos seus relacionamentos, a resposta para Waters sempre fora “não”.
Para finalizar o corte final, a belíssima “Two Suns in the Sunset“, uma conclusão lógica: de guerra em guerra, virá a nuclear, e a exemplo do filme “2010 o ano em que faremos contato”, teremos dois sois no pôr-do-sol.
Eis o tracklist:
“The Post War Dream”
“Your Possible Pasts”
“One of the Few”
“When the Tigers Broke Free” (Incluída na reedição em CD de 2004)
“The Hero’s Return”
“The Gunner’s Dream”
“Paranoid Eyes”
“Get Your Filthy Hands Off My Desert”
“The Fletcher Memorial Home”
“Southampton Dock”
“The Final Cut”
“Not Now John”
“Two Suns in the Sunset”
Formação:
David Gilmour – guitarra e violão
Roger Waters – baixo,violão e vocais
Nick Mason – bateria
Convidados:
Michael Kamen – acordeão, piano
Andy Brown – órgão hammond
Ray Cooper – percussão
Andy Newmark – bateria em “Two Suns In The Sunset”
Raphael Ravenscroft – saxofone tenor
The National Philharmonic Orchestra – arranjos e direcção de Michael Kamen.










3 comentários em “Pink Floyd: em "The Final Cut" Roger Waters já denotava os dois Sois no pôr-do-sol”
espetáculo! Roger é um génio mal resolvido, mas ainda bem e Gilmour , homem perfeito , com os solos mais belos de sempre.
Bom texto, bem informativo, gostei muito. Também acho esse disco muito bom, talvez uma pouco “angustiante” (sinto isso na voz do Roger Waters). Gosto em especial da música “The Fletcher Memorial Home”, uma belíssima música com arranjo e solo de guitarra do Mestre que me faz muito bem à alma !