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King Crimson: Robert Fripp viria anunciar a boa nova na forma de um mito: "In The Court of The Crimson King"

Se o Verão do Amor era a promessa de retorno à idílica Arcádia das Pastorais, logo o tempo se
encarregaria de cobrar o devido tributo de uma geração cujos excessos e o rompimento radical
com o passado acabariam fornecendo o principal argumento em favor do establishment que
combatiam.

De Haight-Ashbury e Wilhelm Reich, o foco das atenções foi deslocado para Baader—Meinhoff e  Altamont Speedway. O recado da ”musa da filosofia” era cristalino: Et ln Arcadia Ego*.
O arauto dos tempos de ressaca — Robert Fripp e sua corte — viria aclamar seu soberano em
plena Carnaby Street, e anunciar a boa nova na forma de um mito: “In The Court of The Crimson King” (1969).



Como Pandora, Fripp despejou sobre a consciência toda sorte de infortúnios represados pela
mente ao destruir a barragem que impedira a realidade de fluir, a esperança!

King Crimson é considerada a banda de rock progressivo por excelência. Em sua estreia, iria
resgatar a Gesamtkunstwerk de Wagner – ou Obra de Arte Total (junção de música, poesia e
artes visuais) – com tanto êxito que o formato ópera-rock tornou-se indissociável do gênero.
Talvez surpreenda o fato de uma banda de rock progressivo emplacar o 5º lugar na parada
britânica e o 28º nos Estados Unidos em seu primeiro álbum.

Recordemo-nos, contudo, que 1969 foi também um ano de transição (véspera do lançamento
de Bitches Brew, marco do jazz-rock), em que os limites geográficos e musicais já não eram
mais tão claros como outrora. Vez por outra eu, por exemplo, esbarro em algum cacoete
derivado do zeitgeist daqueles anos. Não! George Harrison NÃO ERA um músico indiano!

Ao vasculhar a internet em busca de inspiração me deparei com o site de Jon Green,
www.songsougonsea.com. Além de saciado, me vi então na contingência de condensar suas
principais especulações neste exíguo espaço sem desnaturar sua mensagem.



A aposição do endereço acima é o reconhecimento antecipado do meu fracasso. São algumas
centenas de páginas em que Jon Green realmente consegue elevar o nível da discussão.
Green apresenta uma brilhante associação entre a poesia de Peter Sinfield para “ln The Court of The Crimson King” — ou melhor, uma observação do próprio monarca (An observation by King Crimson) — e o legado de Frederico II.

O Sacro Imperador Romano-Germânico encarnou tão literalmente a dualidade do axioma
medieval – o que está em cima é como o que está embaixo* – que foi repartido em dois na
mentalidade de seus contemporâneos.

O monarca representou um mundo dividido entre a razão e a religião. Daí a alusão de Jon
Green ao Rei Carmesin (King Crimson) como sendo Frederico, ora associado ao Rubedo*, ora
ao herege — o próprio anticristo, segundo o papa Gregório IX, que por duas vezes o
excomungou.

Assim também é que Dante Alighieri, na morte, o condenou ao sexto círculo do inferno*, o
círculo dos hereges – num simples referendo à sentença de Gregório lX — porém, em vida, jamais deixou de celebrar o protótipo de homem da renascença, cuja corte Dante considerava o berço da poesia italiana.



O mesmo Dante atribuiu a outro contemporâneo um título que jamais foi banalizado, não só porque a originalidade da fonte resistiu à passagem do tempo, mas pelo fato de que poucos o mereceram.
Arrisco-me a dizer, porém, que Robert Fripp é il miglior fabbro*.

Seu estilo é às vezes comparado ao de Hendrix, mas seu som está mais próximo do cérebro que das gônadas. É com a melodia que Fripp faz amor, e não com a guitarra. E, por ser inconfundível sabe quando se afastar para não se tornar onipresente (além disso, explorou como ninguém a sonoridade do mellotron).

Soma-se a isso a melhor performance de Greg Lake nos vocais. A poesia barroca, quase hermética de Sinfield remete à tragédia de Cassandra (cujas profecias eram confundidas com acesos de loucura) na pregação aflita e solitária de Lake.

Exagero? Agradeçam ao Rei Carmesin, pois como já foi fito:



Don´t believe the devil,
I don´t believe his book
But the truth is not the same
Without the lies he made up“*

* Mesmo na Arcadia eu existo (a morte).
*Princípio hermético da correspondência (para cada acontecimento metafísico há seu correspondente no mundo material).
*Termo extraído do latim (avermelhado) para designar o quarto e último estado da alquimia: a iluminação.
*Divina Comédia.
*Arnaut Daniel de Riberac, o melhor “ferreiro” (no sentido de artífice, inventor).
* “Não acredito no demônio
Eu não acredito no seu livro
Mas a verdade não é a mesma
Sem as mentiras que ele criou” – Bono Vox (God Part II).

Pelo confrade Renato Azambuja.

Postado em 12.03.2012 no blog Free Four, precursor da Confraria Floydstock.



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2 comentários em “King Crimson: Robert Fripp viria anunciar a boa nova na forma de um mito: "In The Court of The Crimson King"”

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