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Arquivo Free Four: Grace Slick e a sua obra de arte chamada "Manhole"

Atendendo ao pedido do nosso grande patrono, Andre Floyd, hoje vou dedicar este espaço ao álbum de estreia da carreira solo de Grace Slick.



Indiferente ao argumento de que eu ainda estava atrás do coelho branco de “Surrealistic Pillow“, segundo álbum do Jefferson Airplane e estreia de Slick na banda, e não conhecia muito mais sobre o assunto, o André garantiu que não me faltaria inspiração pra escrever ao ouvir “Manhole“(1974).

Meu primeiro contato com Grace Slick se deu por conta do excelente “Fear and Loathing in Las Vegas“, uma bad trip protagonizada por Raoul Duke (Johnny Depp, na pele do Jornalista “gonzo” Hunter S. Thompson) e seu advogado, vivido por Benicio Del Toro.

Quem quiser saber mais, aliás, sobre as origens reptícias do personagem Rango, vai se esbaldar com as ultrarreferências neste filme.

Pois Dr. Gonzo, o advogado, no ápice de um barato – na sucessão de delírios quimicamente induzidos que resume a trama — tipicamente trajado (para uma audiência judicial) dentro de uma banheira cheia de água suja e outros detritos, suplica ao seu cliente que mergulhe o gravador quando a música atingir ”aquela nota fantástica, quando o coelho arranca a própria cabeça a mordidas”.



A música em questão é o acid-bolero “White Rabbit“, hino maior da contracultura, que Grace Slick compôs para a Great Society e, ao lado de “Somebody to Love“, tornou o Jefferson Airplane e a cena psicodélica de São Francisco num fenômeno pop.

Se houvesse uma versão em audiobook para a Experiência Psicodélica*, definitivamente Grace Slick deveria narrá-Ia, com sua voz poderosa de valquíria ecoando pelas recém-desbravadas dimensões da mente e embalando os viajantes incólumes em seu retorno aos portões da consciência.

Da mesma forma – aliás, como bem frisado pelo Sr. Floyd, se existe um representante do sexo feminino apto a ombrear os megalomaníacos que o fetiche por túnicas de lantejoulas relegou à antessala das grandes filarmônicas*, esta é Grace Slick, com sua perfeita noção sobre as pílulas que te fazem crescer (e diminuir também, pelo menos durante os exasperantes solos de teclado).

Com efeito, a segunda faixa, “Theme from the Movie ”Manhole”, é uma suíte folk-prog com um quarto de hora perfeitamente equilibrado entre passagens de alta tensão dramática e momentos de introspecção, muito embora a fluidez da composição não sacrifique a natureza rebelde e a irreverência de Grace Slick.



Mas são os bastidores do filme para o qual foi encomendada (a canção Jay e o blues Better Lying Down também integram a trilha) a nota mais trágica ligada à produção deste álbum.

Como em Citizen Kane*, que arruinou a reputação de Orson Welles, aqui também a vida inspirou (e superou) a arte.

Tratando-se de um astro do rock, contudo, quanto mais grotescos os fatos envolvidos maior brilho eles acrescentam a lenda…

E quilos à mulher, no caso, em virtude do abalo psicológico. Parece que Grace Slick não deu ouvidos às instruções da lagarta azul afinal, e jamais recuperou a forma original.



Slick era amante do ator e diretor Juan “Abe” A. Mozart (um espanhol judeu radicado nos Estados Unidos) à época das filmagens.

Grace contracena com Abe no papel de sua filha, com quem a personagem rompe quando a casa cai* – para fugir de uma influência dramática e autoritária – encontrando abrigo fora da cidade, onde um grupo de jovens vive em comunidade.

Durante as filmagens, porém, o diretor veio a apaixonar-se pela atriz que interpretava a madrasta de Grace, a também americana Kim Novak (com quem Abe viria a se casar, apesar de tudo). Ambos foram flagrados no quarto do apartamento de Abe por Grace – durante a festa de lançamento do filme – que encerrou a tragédia “edipiana” carregando nas mãos não os próprios olhos, mas as gônadas decepadas de Abe.

Viver na própria pele este enredo tétrico não impediu que o ambicioso diretor adaptasse o roteiro (o título foi alterado para “Manhood“) para incluir seu próprio revés com outra atriz no lugar de Grace, que cumpria uma pena atenuada em função da forte emoção que guiou seu ato.



Embora inicialmente tenha optado pela filmagem integral do episódio, Abe não conseguiu revivê-lo até o fim, e a alguns instantes do desfecho ouviu-se – nos arredores do estúdio número cinco da Cinecittá* de Roma – um aflito e distinto CUT!

Reviver por anos aquela cena acabou funcionando como uma catarse com efeitos terapêuticos para Abe, que acabou sendo expulso na estreia da adaptação que Andrew Lloyd Weber fez para um musical baseado no filme ao tentar editar por conta própria o clímax de seu trauma com um brado ensurdecedor, vociferado no auditório no Royal National Theatre, em Londres.

*O guia de Timothy Leary baseado no Livro Tibetano dos Mortos, para orientar neófitos na expansão da mente.
*Ou como Zeca Jagger (Ezequiel Neves) qualificou o rock sinfônico: “música de penteadeira de bicha”.
*Acaso ou não, outras referências à obra de Orson Welles se podem identificar no desenlace da trama.
*”The roof is gone”, recita Slick no tema musical.
*Onde o segundo roteiro foi filmado, distante do alvoroço provocado em Hollywood por conta da primeira versão.

Texto do confrade Renato Azambuja, postado originalmente no saudoso blog Free Four em 20/03/2012.




Tracklist:

1. “Jay” Grace Slick Grace Slick2. “Theme from the Movie Manhole”
3. “Come Again? Toucan”
4. “It’s Only Music
5. “Better Lying Down”
6. “Epic No. 38”

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