Sequenciando a série das “Onze músicas compostas por Gilmour e Waters no Pink Floyd“, lhes trago agora a canção “Dogs“, uma das maiores e melhores canções do universo floydiano.
Costumo separar a carreira do Pink Floyd em quatro fases: a inicial, psicodélica barrettiana, a progressiva, quando a formação clássica se firmou, a neuro-paranóica, quando Roger Waters começara a acidular completamente os temas dos álbuns e a instrumental-gilmouriana, pós Waters.
A série “As onze músicas compostas por Gilmour e Waters no Pink Floyd’ traz a canção “Fearless”
“Dogs” que integra o álbum “Animals“, que eu colocaria na terceira fase descrita, consegue entregar elementos das quatro fases, todos dentro dela.
Nela temos ali pelo oitavo minuto toda profusão psicodélica, com os cães latindo sobre as bases de teclados viajantes de Richard Wright;
Temos também toda a riqueza e complexidades de arranjos e variações de andamentos típicos do bom prog-rock;
A série “Onze músicas compostas por Gilmour e Waters no Pink Floyd” traz a canção Comfortably Numb
Tendo as complexidades acima, isso passa fortemente pela atuação inspiradíssima do instrumental de David Gilmour às cordas, tanto nas bases de violões como em seus dois solos de guitarra que arrebata o ouvinte subitamente. Sim ele devia estar mesmo meio endiabrado para ter tanta inspiração.
Mas é na sua característica pertinente à terceira fase, a qual o seu álbum pertence, que “Dogs” é mais forte: toda a pujança da encarnação do sujeito absorto pelo desejo voraz das relações de poder, nas quais estão inclusas todas as vaidades, intrigas, traições, ostentações e mentiras travestidas na figura do cão, dentro do contexto da obra “Animal Farm” (A Revolução dos Bichos”), best seller que serviu de base temática para todo o álbum “Animals“.
A série “As onze músicas compostas por Gilmour e Waters no Pink Floyd’ traz a canção “On the Run”
Destaca-se também toda uma metalinguagem usada por Waters para ataques a pessoas diversas da vida real que o cercava, sobretudo na sua conturbada vida íntima, justo na fase de transição entre suas esposas Judith Trim e Carolyne Christie, entre 1975 e 1977. E por ali, conforme a própria letra de “Dogs” denota, sobraram facadas pelas costas para todo lado.
Enfim, “Dogs” trata daquele cara ou mulher que todos nós conhecemos pelo menos um em nosso convívio, capaz de quaisquer furadas de olho para se sobressair ou galgar um lugar ao Sol remetendo seus viventes ao redor à mera sombra sem nenhum remorso até que o peso da pedra do isolamento e/ou câncer o arraste para debaixo da terra.
A série “As onze músicas compostas por Gilmour e Waters no Pink Floyd’ traz a canção “Young Lust”
É o vômito das babaquices de todo babaca vomitado nas suas devidas faces ao cair de suas máscaras, deixando entrever cada canalha nú e aí nem o próprio Waters se esconde e se entrega pelo abjeto ato de cuspir num fã.
“Dogs” então é uma linda canção instrumental de rock progressivo temperadas com boníssimas psicodelias e sacramentada com uma poesia anti-hipocrisia na carne, onde não basta dizer que tudo isso é lamentável, tem-se que escancarar.
Assista no player abaixo esta belíssima animação para esta canção:
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