
Editor de um dos mais conhecidos veículos de informação sobre rock e metal na internet, a Van do Halen, o jornalista musical João Renato Alves gentilmente aceitou conversar com a Confraria Floydstock.
Leia a entrevista nas linhas abaixo:
1 – Primeiramente, gostaria de lhe agradecer muitíssimo, por dedicar um pedaço de seu tempo, que sabe-se que é bem corrido, para atender a Confraria Floydstock e bater este papo.
Vamos lá. Iniciando, conte um pouco sua trajetória como jornalista musical, a paixão primal pelo rock e a criação da Van do Halen.
O interesse pelo jornalismo veio antes da música. Aos 5 anos de idade costumava ir ao estádio com meu avô, que comentava futebol em uma rádio local. Ficava encantado com todo aquele equipamento e passei a criar o meu próprio. Sempre andava com gravador e fazia minhas próprias programações para ouvir sozinho. Nesse meio tempo, surgiu o interesse pelo Rock a partir de discos de pessoas próximas e, principalmente, quando passei a ter acesso à MTV. Sempre gostei de ir além de ouvir a música, queria saber a história do artista, entender a obra de um ponto de vista mais amplo. Em 2004 me formei em jornalismo. À época já colaborava com o Whiplash, até que conheci o Igor Miranda e o pessoal da Combe do Iommi. Em 2009 surgiu a Van do Halen, inicialmente como blog, passando para um site com domínio próprio e segue até hoje nas redes sociais.
2 – O site da Van do Halen vinha sendo uma referência no meio do jornalismo musical, no âmbito do rock e metal e muito bem acessado. Então você resolveu desligá-lo e se concentrar mais nas mídias sociais da Van, especialmente à página do Facebook e perfil no Twitter. O que o levou a esta decisão?
Os acessos vinham diminuindo no site enquanto aumentavam nas redes sociais. Além disso, houve a necessidade de buscar outros caminhos tanto na vida pessoal quanto no lado profissional. Não dava mais para dedicar o mesmo tempo e elaboração.
3 – Seu estilo próprio de publicação por vezes vem temperado de um humor, ora singelo, como a do aniversário do produtor Rick Rubin, em que você citou “mais bandas que este espaço comporta“, ou veementemente ácido, quando você cutuca o leitor, por exemplo, publicando lista de “melhores ou piores” feita por outro site e cravando: “Não gostou, reclame com eles“, ou ainda quando divulga o “1587965243º relançamento da discografia do Black Sabbath“. Fale mais sobre este seu senso genial de humor e as relações com seus seguidores. Alguma outra curiosidade destas para lembrar aqui?
Quando isso começou foi para criar um clima menos sisudo. Não acho que o humor deva se sobrepor à informação, mas não vejo problema em criar algo mais descontraído quando a situação permite. Nunca me considerei uma pessoa engraçada, mas sempre gostei de fazer alguns comentários provocativos. Isso gerou algumas manchetes lembradas até hoje, como “Vocalista do Bad Brains vai operar o brain, que está bad” e por aí vai. A relação com os seguidores varia. Já fiz algumas amizades, mas em linhas gerais sou uma pessoa reservada. Gosto de manter separado meus perfis pessoais do profissional, até para poder respirar um pouco fora da bolha.
4 – Ainda sobre suas publicações, nos tempos de pandemia você vem se mostrado nelas um tanto cético, quando uma banda anuncia um show ou festival ainda neste ano. Para você, concertos com público presencial, só devem ocorrer em 2022?
Até acho que poderemos ter alguns eventos em 2021, respeitando regras de distanciamento. Porém, não vejo como retomar em larga escala sem que um número considerável de pessoas se vacine. Pensando em shows internacionais, fica inviável planejar uma turnê pelas frequentes mudanças no monitoramento de contágios, além das questões logísticas que envolvem viagens do tipo. No caso do Brasil, onde a pandemia está sendo tratada de qualquer jeito, na base do vamos que vamos, a coisa é ainda mais drástica. Temo pelo que pode acontecer se um Rock In Rio da vida for realizado.
5 – O que é o “rockeiro chato” na sua opinião?
Há muitas definições, mas posso resumir me referindo a quem se acha superior por escutar o estilo, assim como quem acha que só as bandas que escuta prestam ou que apenas uma época específica possa ser classificada dentro do gênero.
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6 – Quem segue seu trabalho consegue notar claramente as suas convicções pessoais, que, de quando em quando você deixa entrever nas suas postagens na Van do Halen. Para você, o jornalista, musical ou não, tem que dar a sua assinatura pessoal e deixar o seu veículo transparecer a essência de seu pensamento para o público?
É lógico que fica mais difícil se posicionar com liberdade quando você precisa responder aos interesses de uma empresa. Por muito tempo eu mesmo não quis expor opiniões que pudessem gerar conflito. Porém, vivemos um momento de exceção, onde se colocar claramente sobre o que está acontecendo é necessário. Muita coisa ainda vai acontecer e quem não falar abertamente sobre os abusos que estão sendo cometidos ficarão marcados. A história vai no julgar, especialmente quando todos temos voz através de nossas redes de interação.
7 – A frase ” o rock está morto” vem sempre à tona, seja em declarações de artistas do meio, seja por anônimos. Que o rock não é mais mainstream em praticamente nenhum lugar do mundo na atualidade, isto já pode-se dizer que é um fato. Mas há algum problema nisso? Não foi assim com o jazz e blues, por exemplo? Como você vê esse tema?
Creio que ainda há espaço para o Rock no mainstream. Games, filmes, publicidade, tudo se abastece do Rock. Mesmo artistas de outros segmentos colocam o Rock em seu caldeirão de influências. A grande questão é que vivemos em uma realidade onde possivelmente não haverá mais um estilo dominante. Hoje fazemos nossas playlists independente do que a mídia coloca como prioridade. E a maioria das pessoas, o ouvinte comum, consome de tudo ao mesmo tempo, sem se importar com rótulos. Em um cenário como esse é muito provável que uma banda de Rock acabe fazendo grande sucesso novamente ali na frente.
8 – O que você tem preferido ouvir ultimamente: quais bandas e artistas? Você ouve outros estilos musicais, quais seriam eles?
Não ouço muita coisa fora do Rock. Toda sexta-feira pego a lista dos lançamentos e procuro escutar novidades. Gostei muito do último álbum do Dead Lord, “Surrender”. Hard Rock clássico, com muita influencia de Thin Lizzy, KISS e UFO, entre outros. Também cito o Wolftooth, que faz um Doom/Stoner muito bacana, eles já têm dois discos lançados; além do Anchor Lane, que lançou o primeiro disco ano passado.
9 – Sua coleção de mídias físicas (LP, CD, DVD, BLU-Ray, Etc) é grande? Como você vê o crescimento cada vez maior da adesão ao streaming? Você também já aderiu a esse tipo de serviço, parcial ou integralmente?
Tenho em torno de 500 CDs, cento e poucos LPs e DVDs mais ou menos a mesma coisa. Não sou colecionador, pego apenas as coisas que realmente gosto. Aderi totalmente ao streaming, assino Spotify e acho muito bom ter à disposição uma opção tão ampla. Só acho que os serviços precisam entrar em acordos mais vantajosos para os artistas, pois a remuneração é muito baixa. Mas o crescimento é natural, o material físico vai se tornar cada vez mais um consumo para o nicho.
10 – Você reside no Rio Grande do Sul, Estado que já revelou nomes relevantes no rock brasileiro. Como estão as coisas por aí nesse sentido, atualmente? Há bandas e artistas locais, com trabalho autoral que você gostaria de recomendar?
Tem muita coisa e ao mesmo tempo é difícil acompanhar tudo, mas cito o It’s All Red como uma banda legal, que faz um Metal moderno e criativo.







