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Um adeus a Sabbath & Ozzy

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Ozzy Osbourne

Reflexão sobre o legado artístico, espiritual e visceral de uma banda que transcendeu os rótulos do heavy metal e marcou gerações com sua música redentora.

Por Renato Azambuja



O maior indicador do sucesso é a incompreensão. O Black Sabbath sempre foi relacionado ao macabro e satânico, o que não é inteiramente equivocado. Assim como as Vanitas, naturezas-mortas que evocam a iminência da morte, Memento Moris, em suas letras e sonoridade o Black Sabbath evoca a brevidade da vida, Memento Vitae. Apesar da memorabilia ocultista que acompanhava a banda e seus fãs, as músicas do Sabbath pregam redenção, a conversão do decaído. Antes que seja tarde demais, o corpo do moribundo é compelido à dança de São Vitus, a uma histeria coletiva celebrando o último suspiro reservado à salvação.

O terror como metáfora: do oculto à redenção

Apesar do nome da banda, a lenda de que inspirados no filme estrelado por Boris Karloff o Black Sabbath decidiu fazer ‘música para assustar’, não se sustenta. Fosse assim, cedo ou tarde seu som se tornaria caricato, repetitivo, a ambivalência estaria fora da equação. E o verdadeiro inferno, como todos sabem, é a ambivalência.

O Black Sabbath é produto da falta de opções decentes de emprego, de dois dedos parcialmente decepados, de muita genialidade e, claro, de paixão. Sendo assim, por que (diabos) deu tão certo? Por que, afinal de contas, sua música é tão arrepiante? Serão os contrapontos do baixo e os repiques onipresentes da bateria que preenchem todo o ar disponível tolhendo a respiração, ou a sensação de vertigem vem das distorções de guitarra e das trombetas implacáveis que surpreendem os instintos mais baixos, fustigando a consciência com versos de expiação?

Segundo Edward Hopper, “Se você pudesse dizer em palavras não haveria razão para pintar”, e cada um em sua área de expertise – Hyeronimus Bosch (outro pintor), Dante Alighieri e Black Sabbath gravaram na memória imemorial da humanidade a imagem medieval da danação eterna.

O som que arrasta a alma: uma experiência além do gênero



Outro equívoco em relação à banda é um dos motivos que me levam a escrever. Muitas homenagens foram veiculadas sobre a despedida da banda e, na sequência, de Ozzy Osbourne, todas louvando o legado de uma das bandas/vocalistas mais influentes do ‘rock pesado’, ou do ‘heavy metal’. Sou forçado a questionar onde me encaixo, eu que não me considero fã de heavy metal nem de rock pesado, mas que, quando ouço Black Sabbath – e nunca aceitei outra formação além da original (o que muitas vezes também me coloca numa posição insólita, “Dio mio!”) – sou totalmente transportado. Literalmente, todas as vezes – como se fosse a primeira – sou arrastado por esse cargueiro amaldiçoado ao vale onde às almas recalcitrantes é concedida mais uma chance.

Outro motivo que me leva a escrever é o sentimento de débito que inspirou as demais homenagens dirigidas ao Sabbath e, principalmente – neste momento de luto – a seu vocalista original (para mim, o único). Embora eu não tenha sido iniciado pelo ‘Príncipe das Trevas’ nas artes da música bem conjurada, é como se fosse. O Sabbath é um dos alicerces que tornam incontestáveis a experiência do rock como uma manifestação artística genuína e digna de um puxadinho nos Campos Elíseos.

E é sem dúvida, principalmente após o show de despedida, que além de seus atributos próprios, o Black Sabbath alçou patamares que o destacam mesmo entre os maiores deuses do rock. Graças a Ozzy Osbourne e seu amor pelo ofício, que está muito além do comum dos mortais; a uma ética de palco que só comparável a outro alicerce: Sir Paul McCartney (um dos que Ozzy elegeu para si), é que podemos voltar nosso olhar em reconhecimento a uma vida inteira dedicada a lojas e sebos de discos, filas de estádio, pilhas de camisetas e posters, memórias afetivas compartilhadas e solitárias. Podemos então dar mais um passo em direção ao futuro, qualquer que seja nosso ofício, quaisquer que sejam as doenças e obstáculos em nosso caminho.

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