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The Beatles: "Abbey Road", o fascinante epílogo

Com cerca de 47 minutos de duração, o álbum derradeiro (não oficialmente, mas na prática) dos quatro geniais de Liverpool, leva o tempo de uma sessão de psicoterapia.



E de fato ele pode servir a tal propósito, contemplado em sua integralidade, ininterruptamente, com os ouvidos e feelings sorrateiramente entregues à profusão.

Servira também de acalanto terapêutico para os quatro feitores, George, John, Paul e Ringo, à luz de seu mestre George Martin, que lhes exigira um comportamento fraternal de outrora, para topar produzir a obra.

O insight surgira do âmago de Paul McCartney, que literalmente correra atrás de seus enrusgados e dispersos colegas a fim de trazê-los e congregá-los no antológico estúdio da Abbey Road que intitularia o álbum, hoje cinquentão.

Como em uma terapia de grupo, os devidos espaços deveriam ser democraticamente respeitados, com a valorização das ideias e produções quádruplas, supervisionadas e orquestradas pelo produtor Martin.



Com toda essa atmosfera, a canção de abertura não poderia ser outra que não denominada “Come Together,“, previamente endereçada por John à campanha do papa do LSD, Timothy Leary para fins do slogan de sua campanha a Governador da Califórnia, posteriormente e jungianamente deixando entrever um tal de inconsciente coletivo eclodido do anseio beatle de união, ainda que  momentânea.

John queria um disco de canções avulsas, Paul por sua vez, preferia algo todo coalizado, tal qual uma ópera conceitual.

Cabível nova intervenção então do “terapeuta” George Martin para equacionar o imbróglio antes mesmo dele começar: dividamos o álbum em 2 partes, onde o lado A trará canções isoladas “a John vontê” e o outro lado faria o Macca sorrir, com a parte de músicas emendadas, sem pausas.

Ainda que no canto dos cisnes, ainda não era tarde para George e Ringo cravarem algumas de suas melhores composições na história da banda.



No caso de George, a idílico-radiofônica “Here Comes the Sun” e Something, esta a “Melhor canção de Amor já escrita”, dito por Frank Sinatra, coisa que este modesto escritor concorda e assina embaixo, sobretudo pelo fato de George conseguir fazer uma canção com romantismo transbordando em lirismo, sem o uso da palavra “Love” e da expressão “I Love You“.

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O senhor Starkey nos trouxera de presente a magnífico-color-lúdica “Octopus’s Garden“, canção que remete um pouco o ouvinte caledoscópico à “The Gnome“, do diamante floydiano Syd Barrett, que chegara dois anos antes, no álbum de estreia do Pink Floyd, “The Piper at Gates of Dawn“.

Mas “Abbey Road” é um álbum de rock and roll e sendo assim, se faz mister aquele toque de visceralidade e agressividades inerentes ao estilo.



Aí que entra Sir Paul McCartney com seus rascantes berros melódicos às canções suas “Oh! Darling” e “I Want You (She’s So Heavy)”, nesta última se acrescentassem a palavra metal após heavy não seria sequer um pecadilho.

Because” e “Sun King“, ambas canções co-irmãs, imersas na erudição, contendo os vocais lírico-triplicados, remetendo o contemplante à atmosfera de uma sinfonia, e das mais belas, daquelas de chorar.

Separando as siamesas supracitadas, Paul McCartney viera com “You Never Give Me Your Money“, na melhor linha cancioneiro blues-rock, e, claro, aprecie seus berros sem moderação.

E Lennon nos dá novo chacoalhão com os petardos rock-raiz em “Mean Mr. Mustard” e “Polythene Pam”, onde ambas servem de prelúdio para na sua foz desembocar na empolgante “She Came in Through the Bathroom Window“, nesta linha de passe musical de extrema competência com as tabelinhas John-Paul.



Se aproxima a parte do final do trabalho, que seria o epílogo de toda uma história que mudara o mundo.

E o álbum vai ficando com ares de nostalgia e transposição de sentimentos ruins em bons. Tranquilizemos e apaziguemos tudo, meus amigos. É o que Paul parece nos dizer na sua suave “Golden Slumbers“, sequenciada por “Carry That Weight“, uma espécie de catarse aos 45 do segundo tempo, indicando uma provável prorrogação das diferenças entre os integrantes da banda, sobretudo entre ele e Lennon.

É chegada a hora do fim da sessão. E assim como ela não poderia deixar de começar com uma canção intitulada “Come Together”, terminar com “The End” no caso derradeiro álbum dos Beatles, seria no mínimo obrigatório.

Embora o disco traga em sua conclusão os 23 segundos da quase oculta faixa “Her Majesty“, é “The End” que efetivamente vaticina o fim de não somente uma banda, mas de uma década que transformaria décadas, deixando-nos o verso:



And in the end
The love you take
Is equal to the love you make

E no fim
O amor que você recebe
É igual
Ao amor que você dá

Assim George Martin apagou as luzes do estúdio na certeza de que cada um ainda teria seus conflitos e chistes, mas que tinham fechado uma gestalt, ou um todo.

Agora, fala sério: tem forma mais linda e solene de se findar uma história?



Tracklist:

1. Come Together
2. Something
3. Maxwell´s Silver Hammer
4. Oh! Darling
5. Octopus’s Garden
6. I Want You (She’s So Heavy)
7. Here Comes the Sun
8. Because
9. You Never Give Me Your Money
10. Sun King
11. Mean Mr. Mustard
12. Polythene Pam
13. She Came in Through the Bathroom Window
14. Golden Slumbers
15. Carry That Weight
16. End
17. Her Majesty

A Banda:

John Lennon – lead, harmony and background vocals; rhythm, lead and acoustic guitars; acoustic and electric pianos, Moog synthesizer; white noise generator and sound effects; percussion;

Paul McCartney – lead, harmony and background vocals; bass, rhythm, lead and acoustic guitars; acoustic and electric pianos, Moog synthesizer; sound effects; wind chimes, handclaps and percussion;

George Harrison – harmony and background vocals; lead, rhythm and acoustic guitars; bass on “Maxwell’s Silver Hammer” and “Golden Slumbers/Carry That Weight”; harmonium and Moog synthesizer; handclaps and percussion; lead vocals (on “Something” and “Here Comes the Sun”);

Ringo Starr – drums and percussion; anvil on “Maxwell’s Silver Hammer”;[39] background vocals; lead vocals (on “Octopus’s Garden”);

Additional musicians

George Martin – harpsichord, organ, percussion

Billy Preston – Hammond organ (on “Something” and “I Want You (She’s So Heavy)”)

 



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