Quando descobri uma vertente de heavy metal banhada em ouro lírico, provavelmente da mesma forma que muitos, através do grupo finlandês Nightwish, com a soprano Tarja Turunen à linha de frente, isso lá pelo fim dos anos 90 e início dos 2000, mais adiante quis explorar outros conteúdos do estilo e pesquisando encontrei uma matéria em 2012 que estava sendo lançado um álbum chamado “Requiem for The Indifferent” de uma banda holandesa de metal sinfônico intitulada Epica, com uma mezzo-soprano chamada Simone Simons ao microfone.
A surpresa fora extremamente positiva ao me deparar com canções de bom grau de rebuscamento e peso através de uma dupla de guitarristas, altas variações de tempo e rítimo, lirismo maravilhoso e um canto macio mas potente entoando tudo.
Como resultado mergulhei de cabeça não só no Epica, mas em todo o estilo metal sinfônico, tendo o Epica como minha preferida, passando a acompanhar cada lançamento de estúdio e ao vivo deles, inclusive a maravilha ao vivo “Retrospect“, com grupo e orquestra completa para celebrar os dez anos da banda em 2013.
Mas faltava vê-los realmente in loco, com meus próprios olhos e ouvidos. Até agora.
Segundo espetáculo do Epica e sexto pela perna sul-americana da “The Ultimate Principle Tour“, a apresentação realizada no sábado último, dez de março na casa Tropical Butantã em São Paulo fora digna de ser gravada para posterior lançamento de um Blu-ray/DVD/CD/LP Ao Vivo dessa atual turnê.
Já na entrada, a fila contornava o quarteirão do lugar, num clima visivelmente eufórico, era letra “E” em Evidência para todos os lados e ainda na fila pude saciar a minha grande curiosidade e expectativa: Sim, a faixa-título do álbum “The Holographic Principle” fazia-se ouvir lá de fora, na passagem de som que a banda finalizava lá dentro, ou seja obviamente ela estaria no setlist, pela primeira vez no Brasil e segunda vez apenas entre os seis shows realizados neste continente. Meu ingresso já estava bem pago.
Eram redondamente vinte horas quando ouviu-se o início do prelúdio “Eidola” que traz gradativamente os membros da banda ao palco, deixando o público, que já tomara de vez as instalações do lugar, radiante.
Tal prelúdio desemboca em “Edge of the Blade“, canção fixa em todos os setlist desta turnê, oriunda do último EP “The Solace System“. Nela surge a voz e imagem da frontwoman Simone Simons ao palco e com ela a dissipação de uma dúvida minha.
Quando publiquei neste blog o texto As dez cantoras de symphonic metal, mais influentes e/ou impressionantes, em que elegi Simone Simons como a melhor delas, fiquei intrigado com um comentário dizendo que ela tinha sérios problemas nas apresentações ao vivo.
Sinceramente, em “Edge of the Blade” no último sábado, concluí que ou ela estudou muito canto ou tal comentário foi infeliz e infundado, pois sua performance nesta canção e em todas que se seguiram entregou um alinhamento técnico formidável, especialmente se considerarmos a maratona de shows praticamente diários que ela vinha fazendo.
Me saltou aos ouvidos o fato de sua voz não se esconder atrás do coral em nenhuma das partes do concerto, ao contrário, seu canto se sobrepunha às vocalizações pré-gravadas dos corais durante todo o tempo.
Uma característica forte do Epica evidenciada nesta turnê é a não dependência do grupo da figura da vocalista, ao contrário de outras do gênero que inclusive praticam substituições sumárias de cantoras, tais como Nightwish, Sirenia e Xandria, muito provavelmente motivados pela vaidade de egos inflados e necessidade de se manter a “supremacia masculina” dentro delas.
Já no Epica percebe-se um convívio amistoso e democrático entre seus membros, no palco e fora dele. Todos parecem se gostar bem ou no mínimo não se desgostar, o que resulta em ganho total de qualidade no coletivo. Esse show mostrou bem isso.
Os vocais guturais modulados de Mark Jansen não faziam questão de ir além do necessário, o supra-carismático Coen Janssen em suas interações no palco com Simone (ambos parecem ser bem amigos) e com o público, permitindo que a galera tocasse o seu teclado (aquele convexo).
Em shows, costumeiramente o baterista fica ali na mera coadjuvância, dando o tom percussivo. Mas no fim da canção “Cry For The Moon” todos os membros se postaram junto à bateria de Ariën van Weesenbeek para reverenciá-lo em seu solo final, mostrando que no Epica todos têm igual valor.
As novidades no setlist ficaram por conta das canções “Unleashed”, executada pela primeira vez nessa sequência de shows e a supracitada “The Holographic Principle“, nova aos expectadores brasileiros. Sobre essa canção devo dizer:
Quando ela saiu em estúdio eu afirmei que era uma das melhores músicas de todo o symphonic metal ao lado de “The Great Show On Heart“, do Nightwish e “Kingdom of Heaven” também do Epica (essa fez falta). Vendo-a ao vivo, agora isso pra mim é definitivo.
Música grandiosa em todos os sentidos, trazendo um coral majestoso que entrega para o harmonioso solo da guitarra de Isaac Delahaye e o mavioso canto de Simons. Aí vem o peso, culminando num refrão dos mais belos que já ouvi, seguindo as variações. Ao seu fim, bradei: “E Viva o Erudito!!!”
O “early years” foi tocante e apoteótico aos primeiros acordes de “Cry For The Moon” e o verso “Forever and Ever” dominara toda a atmosfera do lugar.
O já conhecido “Gran Finale” se deu com a derradeira “Consign to Oblivion” que conclamou a massa da pista a ativarem o modo “Mosh”, a prática de todos pularem e se chocarem em círculo.
Concluindo, o Epica segue mostrando ser uma banda repleta de qualidade, técnica e profissionalismo, mas que em nenhum momento passa a imagem de um estrelismo exarcebado. Sabem que são uma puta banda que gostam de tocar e cantar e serem reconhecidos pelo público e isso basta.
Só fico imaginando como será o aguardado milésimo concerto que farão na Holanda, onde tudo começou, no dia quatorze de abril próximo.
Abaixo o meu registro de “The Holographic Principle” no player da imagem:















