Cinebiografia sobre Bob Dylan derrapa ao entregar o oposto daquilo a que se propõe
Por Renato Azambuja
O filme Bohemian Rhapsody parece ter deixado muito claro que, como uma piada, esse tipo de cinebiografia de gabarito só funciona uma vez. A única nostalgia sessentista que a fórmula utilizada na mais nova cinebiografia de Bob Dylan, “Um Completo Desconhecido“, provoca é a do método de Stanislavski, em que a técnica era mergulhar no personagem e não na técnica do personagem.
A complexidade de figuras como Bob Dylan (assim como a de Freddy Mercury) é severamente castigada pelos novos deuses da audiência como a ninfa eco, da mitologia. Haja talento pra mímica a esses pobres (mais neurônios e menos espelho, por favor!) atores da atualidade, em que a busca por padrões alcançou o status de autismo.
O filme faz o oposto daquilo a que se propõe. Em vez de mergulhar profundamente nos primeiros anos de Dylan, mostra uma Nova Iorque já moldada à sua forma, a cuja imediata recepção responde um Dylan mal-humorado. Nada dos olhares e tiradas marotas do garoto tímido do meio-oeste que confundia os jornalistas nas coletivas.
Dylan comporta-se como alguém já escolado nas vicissitudes da fama sem ao menos ter passado pela vida. Aquele não é Dylan, mas um resgate descontextualizado feito por alguém que rola a tela do celular (demorando-se apenas nas cenas de sexo) de trás para a frente, trazendo o ganhador do prêmio Nobel de volta para o passado sem despi-lo das bagagens acumuladas pelo tempo e pela fama.
Resta apenas um lobo velho numa pele de cordeiro, de olhar penetrante e sedutor, cujo apetite por colecionar fêmeas equipara-se apenas ao de um chefe do tráfico carioca.







