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Pink Floyd: A Battle of Words – Os 50 anos de ‘The Dark Side of The Moon’

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“Por quase quarenta anos, esta estória prestou serviço fiel aos jovens de coração; e o Tempo tem sido impotente para colocar sua gentil filosofia fora de moda. Para aqueles de vocês que foram fiéis a ela em troca… e aos jovens de coração… dedicamos esta película” – (Dedicatória nos créditos de abertura de O Mágico de Oz)

Quando uma obra abarca o espírito da época com tanta ênfase que parece inaugurá-lo, a única linha que separa realidade e ficção é traçada em termos (mais vagos do que gostaríamos de admitir) jurídicos de proteção a direitos autorais. As ‘assim chamadas’ coincidências são então a regra.

Após a publicação de Os Sofrimentos do Jovem Werther, a atmosfera do livro de Johann von Goethe engolfou a realidade como um miasma, a trama foi conquistando mais e mais terreno e deixando atrás de si um rastro de sangue adolescente no que se tornou conhecido como o Mal do Século.

And if the band you’re in starts playing different tunes

Da mesma forma, a alegoria de Roger Waters sobre os males do dinheiro em Money voltou-se contra o próprio admoestador, e a partir de então não havia mais uma banda, em tese, apenas um empreendimento em termos de Nós e Eles.

Quando uma obra é capaz de abarcar o espírito da época com essa magnitude, dizemos que um arquétipo foi constelado.

Para entender o que é um arquétipo, e como ele se manifesta através da sincronicidade, temos em mãos o exemplo perfeito. Para quem já se surpreendeu com a conexão entre o álbum The Dark Side of The Moon e o filme O Mágico de Oz, o que ocorre após o terceiro rugido do leão da Metro-Goldwyn-Mayer e impele os personagens de ambas as obras num balé universal é um enredo tão antigo quanto a própria humanidade.

Sempre que sua vida corre grande perigo, quando a bruxa má da realidade ameaça arrancar-lhe da inocência representada por Toto, o animal de estimação de Dorothy; ou quando o monstro da estagnação enche sua alma de fantasias assustadoras sobre alienação – como na terrível crise que serviu de inspiração a Waters para a criação de The Dark Side of The Moon – mente e matéria são levadas de roldão pelo poderoso arquétipo do herói.

For long you live and high you fly
But only if you ride the tide
And balanced on the biggest wave
You race towards an early grave

O toque do despertador marca o chamado da aventura. Dorothy parte para o tão sonhado lugar “além do arco-íris”. Não estamos mais em Kansas, mas no lado escuro da lua. O que está por vir deve antes ser ofertado em sacrifício.

Ao passo, porém, que a arte da capa de The Dark Side – escolhida unanimemente pelos membros da banda – representa a fragmentação da luz, Dorothy é o prisma invertido, o herói dilacerado que no caminho de provas consegue unir as partes de seu ser com coragem, mente e coração.

The lunatic is in my hall
The lunatics are in my hall

Este edifício sonoro erguido sobre o legado de Syd Barret promoveu a emancipação musical da banda. Sob a pilha de esqueletos em seu armário, Roger Waters começa a transcender a própria origem traumática.

O mundo da fantasia é o refúgio e a cura da mente criativa pela imaginação. Mas a arte também pode adoecer quando o criador confunde-se com a fonte da criação. Como Nietzsche, que adotou a alcunha de Dioniso Zagreu e foi de encontro ao prisma.

Em sua precoce crise da meia-idade, Waters aborda, em The Dark Side, os grandes temas da humanidade como verdadeiro filósofo. Seu foco então passa a estreitar-se. De romancista em Wish You Were Here e Animals a biógrafo em The Wall, passando a tecer crônicas de “outras guerras” em The Final Cut.

Any Colour You Like

Os últimos, bem como os penúltimos capítulos da novela que se passa nos corredores desta instituição chamada Pink Floyd, têm girado em torno das discussões entre seus membros. Após servir-se de todas as musas, Waters enamora-se de Clio. O filho de Eric Fletcher, o herói de guerra, aferra-se à criação como se lhe pertencesse. Com uma trombeta e um livro, o lunático avança sobre as últimas cores do espectro.

There’s no dark side of the moon, really
Matter of fact, it´s all dark

Texto por Renato Azambuja.

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