Light My Fire
Atualmente, a Universidade de Michigan não parece ficar muito animada com o regresso à casa¹. Mas na década de 1960 a história era diferente. Naquela época, a agenda de eventos do fim de semana costumava ser vista como uma cena do filme “Animal House“.
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Além das costumeiras manifestações de torcidas e cabos-de-guerra, havia corridas de bigas, corridas de cama, corridas de elefantes (com elefantes de verdade), sky divers, dançarinas, o Mud Bowl² e um grande desfile pelas ruas de Ann Arbor, com carros alegóricos construídos por estudantes, políticos locais, ex-alunos famosos, coelhinhas da Playboy e Sonny Elliot.
Durante os anos 60, o fim de semana de boas-vindas também contava com concertos de um ou mais artistas musicais nacionais proeminentes, incluindo notáveis como os Righteous Brothers, os Four Tops, os Beach Boys e Dionne Warwick. Para 1967, os organizadores contrataram a cantora Buffy Sainte-Marie, o pianista de jazz Ramsey Lewis e, no baile de sexta-feira à noite, no Intramural Sports Building, os Doors.
Quando os Doors subiram ao palco na noite de 20 de outubro, o público surpreendentemente pequeno estava ali para uma experiência única – entretanto, por todos os motivos errados. O concerto acabaria por ser um desastre memorável. Mas além de desapontar centenas de fãs, aquele show fatídico também provaria ser um evento que pode muito bem ter alterado a história do rock and roll.
Break on through
Entre os que estavam na multidão naquela noite estava Fred LaBour, estudante de 19 anos da Universidade de Michigan, que pagou alegremente US$ 3 por sua entrada e a da namorada para ver a banda cujo single hipnótico “Light My Fire” estava incendiando as paradas desde junho.
“Eu era um grande fã”, lembra LaBour, hoje mais conhecido como “Too Slim” da banda de country & western Riders in the Sky. (Ele também foi uma das principais fontes por trás do boato de 1969 de que Paul McCartney estava morto.) “Eu amei o primeiro álbum, de cabo a rabo. Os estranhos maneirismos de circo, a poesia, “The End”, e até mesmo uma música de Kurt Weill³. Um som tão único e atraente.”
O ato de abertura naquela noite foi o Long Island Sound, uma das principais bandas de dança do câmpus. Segundo os relatos, seu set foi bem recebido e incluiu várias faixas do Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, lançado apenas alguns meses antes. Então chegou a hora do Doors, que subiu ao palco em meio a aplausos entusiasmados – mas sem o vocalista Jim Morrison. Os outros três membros da banda lançaram-se no riff de abertura de sua música “Soul Kitchen”, que passaram a tocar repetidas vezes enquanto todos esperavam que Morrison aparecesse.
“Depois de um tempo, começou a ficar desconfortável“, diz Fred LaBour. “Houve vaias espalhadas.” LaBour recorda que a banda se retirou e voltou meia hora depois, desta vez acompanhada por seu carismático vocalista bad boy, que não parecia em condições de estar no palco. “Morrison mal podia manter-se em pé. Ele estava praticamente caindo de cara a cada momento“.
People are strange
Steve Welkom, do Long Island Sound, que ficou para ouvir o The Doors, lembra-se de Morrison balançando-se até o microfone e fazendo sons estranhos que a plateia logo percebeu serem palavras – e que as palavras eram um bombardeio de palavrões.
“Na época, era uma coisa ultrajante de se dizer“, explica Welkom. “As garotas começaram a corar e os caras colocavam as mãos sobre os ouvidos das garotas.” Estes eram caras com corte de cabelo militar. Eles eram jogadores de futebol. Não foi o baile mais elegante que se poderia esperar.
A atmosfera no ginásio intempestivamente quente ficou tensa quando o choque do público se transformou em raiva. Gary Munce, do Long Island Sound, lembra que Morrison estava “em um estado de espírito criminoso” e começou a aumentar a temperatura um pouco mais, quando começou a jogar coisas na multidão.
“Foi quando a coisa ficou realmente desagradável.“
Em determinado momento, a polícia foi chamada e o cantor beberrão foi persuadido a deixar o palco, provavelmente evitando um surto de violência.
“As pessoas estavam loucas”, lembra Steve Welkom. “O lugar estava um caos.”

JIM MORRISON “Trêbado”
Wild Child
O tecladista dos Doors, Ray Manzarek, lembra bem daquela noite. Tudo começou, ele diz, quando a banda decidiu parar para um sorvete enquanto viajava de limusine de Detroit para Ann Arbor.
“Todos nós queríamos sorvete“, explica Manzarek. “Mas Jim diz: ‘Sorvete é para bebês. Eu quero uísque’. Então tivemos que parar em uma loja de bebidas e comprar uma garrafa de bebida“.
Algo sobre os outros comendo seu sorvete, inclusive, pareceu deixar Morrison de fora, e pelo resto da viagem ele sentou-se no banco de trás, bebendo emburrado.
Quando chegaram a Ann Arbor, lembra-se Manzarek, o cantor estava “bêbado como um gambá”. Quando finalmente chegou ao palco, não conseguiu, e talvez não quisesse, se apresentar.
“Ele estava perdendo todas as deixas e, em algum momento, começou a repreender o público. Estou pensando: ‘Jim, não irrite esses caras! Eles são jogadores de futebol. Olhe para a espessura de seus pescoços!’ Mas ele continuou avançando e avançando.”
Finalmente, o guitarrista Robby Krieger e o baterista John Densmore saíram do palco, “indignados e enojados“.
Um desesperado Manzarek pegou uma guitarra e tocou alguns acordes de blues, na esperança de conseguir alguma coisa – qualquer coisa -. Mas “Morrison estava muito chapado até para acompanhá-lo“.
Eventualmente, o vocalista atordoado simplesmente se sentou na beira do palco. “Fiquei totalmente chocado“, diz Manzarek. “Foi a primeira vez que ele foi tão inconsequente no palco.“
Riders on the storm
Infelizmente esse não foi o fim. O breve restante da vida de Jim Morrison seria preenchido com incidentes semelhantes – como o show dois dias depois no Williams College, em Massachusetts, onde diante de uma platéia irremediavelmente confusa o cantor cambaleou e finalmente caiu no palco, soluçando.
Foi o fiasco de Michigan, no entanto, que realmente pareceu gravar-se em Ray Manzarek – especialmente a memória dos zangados e desajeitados linebackers com suas namoradas penteadas. Ele, porém, é grato por a banda sair ilesa.
“Jim colocou o braço sobre meu ombro e eu o ajudei a sair do palco, e esse foi o fim da noite, cara.“
Para os Doors, talvez – mas não para o Long Island Sound, que entraram em cena para se tornar os heróis da hora. “Os caras que estavam organizando o baile vieram correndo e nos pediram para tocar outro set”, lembra Steve Welkom. “Então nós pulamos e começamos a tocar e todo mundo começou a dançar e foi ótimo. Conquistamos toda a multidão e todos ficaram felizes.“
Mesmo assim, muitos provavelmente sentiram o mesmo desapontamento que Fred em não conseguir ver os Doors se apresentando. “Eu me lembro de pensar: ‘Que espetáculo horrível’. Jim Morrison não foi um artista de verdade naquela noite, a menos que você goste de ver os bêbados descontrolados se arrastando e cambaleando, imaginando o quão longe eles vão.“
Hello, I love you
Pelo menos uma pessoa no meio da multidão pensou diferentemente, no entanto – um desistente da universidade chamado Jim Osterberg, que havia recentemente começado sua própria banda de rock. Como a maioria dos outros, Osterberg observou atônito enquanto Morrison tropeçava pelo palco, fazendo ruídos estranhos, xingando e, geralmente, hostilizando o público. Exceto que, em vez de se aborrecer com o comportamento do cantor, Osterberg achou aquilo o máximo.
Inspirado pelo que ele havia testemunhado, o ex-membro da equipe de debate da Ann Arbor High adotou o nome de guerra de Iggy Pop, e com sua banda, os Stooges, passou a mudar a história do rock and roll. Contudo, suas escandalosas atitudes no palco e atitudes despreocupadas, muitas vezes beligerantes em relação a seus fãs – bem como sua aparente falta de habilidade musical – ajudaram a encorajar uma geração de jovens rebeldes a pegar guitarras e lançar o fenômeno punk rock do final dos anos 70.

JIM OSTERBERG OU IGGY POP.
“Na época em que [Iggy] estava sendo insultado, por volta de 1970, o rock girava em torno do virtuosismo”, diz Paul Trynka, ex-editor da revista Mojo e autor da biografia Iggy Pop: Open Up and Bleed. “Uma vez que seu impacto foi sentido, a partir de 1977, o rock girou em torno de sentimentos, emoções – bem como o tédio, a frustração, a raiva incoerente e a alegria do rock and roll alto e explosivo. Sem Iggy não haveria Sex Pistols, nem Nirvana, nem White Stripes.”
O que torna ainda mais fascinante considerar que, se o impressionável jovem Jim Osterberg tivesse ficado um pouco mais por ali naquela noite no prédio da IM, negar-se-ia ao mundo – para o bem ou para o mal – a poderosa influência do psicopata original do punk rock. Porque parece que depois de quase todos terem saído, os Doors voltaram ao palco, com Jim Morrison inexplicavelmente sóbrio, e tocaram um conjunto inteiro de seu material, sem falhas.
“Foi inacreditável“, diz Steve Welkom. “Eu sentei lá com a minha namorada, e nós simplesmente não conseguíamos acreditar. Os Doors soaram fenomenais. Porém, não havia quase ninguém para apreciá-los“.
When the music’s over
Welkom entende o ceticismo que muitas vezes saúda sua narrativa dessa história. “Felizmente, tenho uma testemunha corroboradora – minha namorada, que agora é minha esposa.”
Suas lembranças também são apoiadas pelo colega de banda John Nemerovski, e por uma carta publicada no Michigan Daily, alguns dias depois da dança. (Não houve revisão.)
“Eu estive no mundo da música toda a minha vida“, diz Welkom, maravilhado com a lembrança de tudo, “e o segundo set do Doors foi um dos cinco principais shows que eu já vi.“
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1. Homecoming: eventos para celebrar o encontro de ex-alunos;
2. Futebol na lama;
3. Alabama Song;
Traduzido pelo confrade Renato Azambuja via Michigan Today









1 comentário em “O desastre do The Doors em Michigan (aos olhos fascinados de Iggy Pop)”
postei em minha pág no face espero que não dê freakstick em ninguem, agradeço a info