Hoje, tomando meu singelo e rápido café da manhã, subitamente e sabe-se lá o porquê, me viera à mente a canção “Terra de Gigantes“, clássico radiofônico oitentista da banda gaúcha Engenheiros do Hawaii, com letra do inteligentíssimo Humberto Gessinger.
Quando cantarolei o seu refrão, que diz “…”a juventude é uma banda numa propaganda de refrigerantes“, me batera o saudosismo pelo tom politizado de não somente esta canção, mas de toda aquela safra do rock brasileiro da década de 80 e também da MPB 60 e 70.
Paralelizemos com o nosso tempo atual, nas ondas sonoras do rádio, streamings e demais mídias e massa e percebamos que houve uma verdadeira e total despolitização por completa da música, principalmente no Brasil.
Praticamente nada de mais sério, no tocante às questões sócio-políticas de hoje é contestado ou singelamente ironizado, nem mesmo en passant em nenhuma letra de música que se ouve nos dias de hoje.
E o pior, surgiu por aí a famosa frase imperativa “Não se deve falar de política em música”, ganhando força enormemente quando algum artista, geralmente das antigas, mistura as coisas, como aconteceu em outubro passado na passagem de Roger Waters no Brasil, este que desde sempre misturou as coisas e chegou ao estrelato apical justamente por isto. Nenhuma surpresa havia ali.
Assim como aqui no Brasil o cantor e guitarrista Lobão literalmente faz o mesmo, do outro lado da moeda política.
Eles e qualquer um têm o direito e cantar ou bradarem politicamente o que quiserem e isso é bem melhor do que definharem as suas criatividades entoando imbecilidades balbuciantes e monotemáticas da música de massa atual.
E é bom que ambos os lados o façam. É ótimo que alguém, que cada vez mais pessoas o façam. Que sujam novos Frank Zappa por lá e Plebes Rudes por aqui.
A música como forma de arte e cultura, é e deve ser imbuída de toda carga cultural-histórica de seu cotidiano. Na pintura, na escultura, na poesia e até mesmo na arquitetura, historicamente sempre assim o fora.
Até porque, como diz o enunciado deste post, se não falar de coisas relevantes o que sobra? As futilidades. Chifre pra cá, traição pra lá (você vai ver, eu vou me vingar), o bunda lê lê sem nenhum arranjo poético, uma gama de refrões formados apenas por sons onomatopeicos vazios e perde-se a conta do limite da capacidade de se criar coisas tão sofríveis. Você, como eu que talvez achasse que a coisa tava bem feia nos anos 90, ledo engano, o fundo do poço parece ser hoje. Ou dá pra imergir ainda mais?
Mas só teria política para se fazer letras de qualidade? Óbvio que não, há uma infinitude de temas riquíssimos e inspiradores, mas mesmo o AMOR, tema tão pobremente abordado nas músicas de hoje, merecia ser tratado com mais respeito, esmero e principalmente, com poesia tenra, fina e elegante.
E aí não adianta reclamar do nível tão abissal de temas e letras, que até as minhocas olham para baixo, se não defendemos e valorizamos quem nos tenta apresentar conteúdos superiores.
O mais curioso é que na última década, crescentemente a política teria sido um prato cheio para artistas de quaisquer tendências políticas trabalharem seus temas, mas todo este cardápio servido à mesa, é desperdiçado, exceto, quiçá, pela música produzida no underground ou fora do main stage, aquela que você jamais houve nas ondas do seu dial ou vê na primeira página dos serviços de streaming.
Sejamos sim mais críticos e exigentes. E para quem é de música, que o cítrico também venha nas melodias e palavras, seja você canhoto, destro, ambidestro ou mesmo um cético total.









