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Como a comida chinesa impulsionou a ascensão do punk californiano

The Bags apresenta-se no Hong Kong Café, em Los Angeles, em 1979. Louis Jacinto



No final da década de 1970, os restaurantes de Chinatown começaram a contratar um  entretenimento improvável: as jovens bandas turbulentas da nascente cena punk da Costa Oeste.

BILL HONG ERA UM PAI CANTONÊS IMIGRANTE, em seus quase 50 anos, dirigindo um restaurante no bairro de Chinatown, em Los Angeles, com sua irmã Anna Hong e seu marido Arthur, quando dois jovens promotores o abordaram com uma proposta comercial: o que Hong achava de alugar o salão de banquete no andar de cima do restaurante à noite, quando não estava sendo usado?
Era 1979 e L.A. estava se contorcendo. O país inteiro mergulhara em uma recessão profunda poucos anos antes, e agora Chinatown e as áreas centrais da cidade estavam arruinadas. Imigrantes chineses mais recentes começaram a se mudar para enclaves suburbanos como o Vale de San Gabriel, ignorando completamente Chinatown e seus negócios; os clientes não-chineses que costumavam ir ao bairro para jantares exóticos de comida chinesa agora evitavam o centro da cidade.
Quando Bill Hong disse sim aos promotores, ele estava tentando ser prático. Ele sabia que o restaurante precisava de mais clientes; talvez permitir que algumas bandas jovens tocassem poderia ajudá-los a entrar. Ele nunca poderia ter previsto que o estabelecimento de sua família, o Hong Kong Low – localizado em uma pequena rua chamada Gin Ling Way – se tornaria um ponto focal para uma cena musical seminal: o punk da Costa Oeste.
Também não sabia quantas vezes o banheiro do restaurante seria destruído no processo.

China Wagon 
Sacramento, Califórnia

Panfleto de um show dos Mumbles no China Wagon, no final dos anos 70 – começo dos anos 80. Cortesia de Carol Gale e The Sacramento State Rock & Radio Museum.



O letreiro de neon que ficava na frente do China Wagon (anteriormente conhecido como Sam’s Original Ranch Wagon antes de se tornar um restaurante chinês) na 19th Street com Broadway, Sacramento, data desconhecida. Cortesia de Carol Gale.

Panfleto de uma festa de gravação subterrânea no China Wagon, final dos anos 70 – início dos anos 80. Cortesia de Carol Gale e The Sacramento State Rock & Radio Museum.

O restaurante de Hong, conhecido como Hong Kong Café para os frequentadores dos shows, estava longe de ser o único restaurante asiático a incubar a cena punk californiana. No final dos anos 1970 e início dos anos 80, de Sacramento a São Francisco, alguns dos locais punk mais importantes do Estado eram na verdade restaurantes chineses e filipinos. Em restaurantes como o China Wagon de Sacramento e o Kin’s Coloma, ou o Mabuhay Gardens de São Francisco, bandas agora icônicas como X, The Germs e Black Flag fizeram alguns de seus mais memoráveis shows iniciais. O Hong Kong não foi nem o primeiro lugar da Chinatown de Los Angeles a receber shows: o restaurante do outro lado do pátio, o Madame Wong, já fazia o mesmo há pelo menos um ano.Inacreditavelmente, Hong Kong continuou o serviço de jantar como de costume durante os shows, que aconteciam quase todas as noites. “Lá embaixo, haviam chineses jantando com suas famílias. E lá em cima, havia essa coisa louca punk acontecendo”, diz Christy Shigekawa, sobrinha-neta de Bill Hong. “Você podia vê-los subindo as escadas, e as pessoas ficavam tipo ‘Uh …’ Às vezes o teto tremia.”

The Hong Kong Café
Los Angeles, Califórnia



 Dianne Chai, baixista da banda Alley Cats, no Café Hong Kong, 1979. Fotografia de Louis Jacinto

Su Tissue dos Suburban Lawns no Café Hong Kong, 1979. Fotografia de John Brian King

DeDe Troit da banda UXA, no Hong Kong em 1979. Fotografia de Mike Murphy

O equipamento dos Bag´s no Hong Kong. Fotografia de Louis Jacinto



Patricia Morrison, baixista da banda de LA, the Bags, se apresentando no Hong Kong, 1979. Fotografia de Louis Jacinto

Calendário de shows para o Hong Kong Café, junho de 1979. Bandas tocavam no salão de banquetes no andar de cima do restaurante quase todas as noites

De certa forma, era como arrumar qualquer local de apresentação, para atrair mais clientes para o seu restaurante com música ao vivo”, diz Fiona I.B. Ngo, professora associada de Estudos Asiático-Americanos e Estudos sobre Gênero e Mulheres na Universidade de Illinois e autora de um artigo de 2012 sobre o cruzamento das identidades de refugiados do Sudeste Asiático e da música punk na Los Angeles do final dos anos 1970. Em outras palavras, os donos de restaurantes precisavam de entretenimento; os punks simplesmente foram aqueles que apareceram.
É um lance de negócios estranhamente prático“, diz Shigekawa, especulando sobre a motivação de seu tio-avô. “E, culturalmente, talvez ajudasse que eles já não fizessem parte do mainstream. Talvez você recebesse críticas de outras pessoas de Chinatown, mas, por outro lado, quanto seria prejudicado ao fazer algo que não fosse socialmente aceitável?” 
O punk de L.A. estava longe de ser todo branco (as crianças chicanas, especialmente, faziam parte da cena desde o início), mas, para os não-asiáticos, a Chinatown administrada por imigrantes ainda mantinha um certo fascínio transgressivo. Para as pessoas na cena na época, ambos vivendo em prédios de apartamentos decadentes – ao lado de refugiados e outros pobres urbanos – e tocando em restaurantes asiáticos foram intencionalmente decisões políticas e estéticas. “A racialização do espaço e a pobreza desses espaços traz um certo tipo de prestígio em termos de fazer parte de uma subclasse política”, explica Ngo.
As relações entre os punks e os proprietários poderiam ser … complicadas. Esther Wong, a dona chinesa do Madame Wong, ficou famosa por suas fortes opiniões; ela insista em avaliar todas as bandas que tocavam em seu restaurante, e até disse a um repórter do Los Angeles Times em 1980 que, se recebesse uma demo ruim, ela gostava de “jogar pela janela” (Shigekawa conta que a dona também era ferozmente competitiva, às vezes chamando o corpo de bombeiros no Café de Hong Kong para acabar com seus shows.) No final, Wong foi demonizada pela cena quando ela ficou exasperada com as brigas surgindo em seu restaurante e proibiu certos grupos – como os Alley Cats e os The Bags – de tocar lá.

Madame Wong’s
Los Angeles, Califórnia

Esther Wong, a proprietária do Madame Wong, foi elogiada como a “madrinha do punk” – um título controverso, especialmente entre os músicos proibidos de tocar em seu restaurante. Ela abriu um segundo Madame Wong em Santa Monica, na foto acima, em 1980. Fotografia de Iris Schneider / Los Angeles Times via Getty Images



Wong foi difamado pelos punks por, entre outras coisas, uma preferência por contratar bandas mais pop. Aqui, o grupo britânico Babys no Madame Wong em Chinatown, 1979. Fotografia de Armando Gallo / ZUMA Studio

The Know – outra das bandas de power pop Esther Wong priorizava – em Madame Wong, Chinatown, 1978. Fotografia de Louis Jacinto

Ainda assim, a caracterização de Wong, nascida em Xangai, como uma “dama do dragão” deixa um sabor amargo. Apesar de todas as suas políticas de anti-conformismo, diz Ngo, os punks “não reconheciam as formas como o seu racismo, seu orientalismo, estavam influenciando na maneira como imaginavam seu temperamento e políticas. De algum modo, ficaram surpresos que, se entrassem e destruíssem o restaurante, ela talvez não os quisesse de volta.
O auge destes restaurantes-e-locais-para-eventos asiáticos não durou muito: o Café Hong Kong só recebeu shows de 1979 a 1981; O Madame Wong’s aguentou até o começo de 1987. O Mabuhay Gardens gradualmente transformou-se em um local de música e comédia completo, impulsionado pelo entusiasmo de seu proprietário Pinoy, Ness Aquino, apresentando shows entre 1976 e 1986.

Mabuhay Gardens
São Francisco, Califórnia

A banda local Crime at the Mabuhay Gardens – também conhecida como “Fab Mab” – em 1978. “A Crime toca alto”, escreveu um crítico sobre a banda naquele mesmo ano. “Tão alto que a vidraça do lado oposto do clube treme, as mesas tremem e as pessoas se agarram a suas bebidas.” Fotografia de Ruby Ray



A cantora Kelli Sae do grupo James White and The Blacks com outra cantora de apoio, no palco do Mab, por volta de 1980. Fotografia de Stanley Greene / NOOR

Do lado de fora do Mab, na 443 Broadway, no bairro de North Beach, em São Francisco, no final dos anos 70 – início dos anos 80. Fotografia de Bobby Castro

Joey Ramone dos Ramones no palco no Mab, 1978. O local se tornou popular tanto entre bandas em turnê quanto entre grupos locais. Fotografia de Stanley Greene / NOOR

Jello Biafra do Dead Kennedys, apresentando-se no Mab em 1979 (o mesmo ano em que o vocalista concorreu a prefeito de São Francisco). Fotografia de Mike Murphy



Panfletos de shows no Mab, na sequência… 1981, 1983 e 1987. Cortesia de Aaron Cometbus Coleção Punk and Underground Press, Biblioteca da Universidade de Cornell

Uma cena rara de banheiros intactos no Mab, 1980. Fotografia de Stanley Greene / NOOR

Já no início dos anos 80, as bandas mais artísticas e ecléticas do início da cena punk estavam dando lugar ao som mais macho do hardcore. Mas essa época intensa da experimentação do final dos anos 70 continua viva no anedotário da música – e no folclore familiar dos americanos asiáticos que administravam os restaurantes.

Lembro-me de ouvir uma vaga estória sobre como houve uma época em que os negócios eram difíceis, e tio Bill teve essa ideia maluca de permitir que todos esses punks entrassem no restaurante e fizessem shows“, diz Shigekawa, que nasceu no início dos anos 80, alguns anos depois que os shows terminaram, “e como eles destruíram o lugar, e eles estavam usando drogas, e eles eram violentos. Eles danificaram o banheiro, quebraram janelas. E que os vizinhos também estavam furiosos por isso.

Kin’s Coloma
Sacramento, Califórnia



Mod Philo, um grupo new wave / power-pop, no Kin’s Coloma, no início dos anos 80. O restaurante de buffet chinês na Folsom Boulevard recebeu shows de 1981 a 1982. Fotografias de Jerry Perry

A cena no Kin’s Coloma durante um show, 1981-82

Os frequentadores do Kin’s Coloma, por volta de 1981

Withdrawl, conhecida como a melhor banda de punk local de Sacramento na época, tocando no Kin’s Coloma de 1981



Panfleto para um show no Kin’s Coloma, 1981. O preço de entrada de US $ 3 incluía o acesso ao buffet chinês à vontade. Cortesia de Dennis Yudt e Jerry Perry

Shigekawa está agora trabalhando em um documentário sobre o local; Ela entrevistou dezenas de músicos e fãs que dizem que suas carreiras e vidas foram modificadas pelas noites no Hong Kong. O que mais a impressionou, ela diz, é o quão significativo esse breve período foi para eles – e quão diferentemente eles veem essas noites agora. “Muitas pessoas são quase apologéticas”, diz ela. “Eles me disseram: ‘Desculpe por termos feito todas essas coisas no restaurante da sua família. Deve ter sido horrível para eles. Eu não desejaria que um bando de adolescentes malucos viesse arruinar meu restaurante.

Traduzido pelo confrade Renato Azambuja via Topic

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