Saudoso cantor e compositor, “sinônimo” de Mangueira, nasceu num dia como hoje, em 1908
Por Marcelo Rezende.
Agenor de Oliveira, nacionalmente conhecido como Cartola, foi tudo nessa vida. A começar pelo nome. Registrado Angenor, só foi perceber isso ao tratar dos papéis do seu casamento com dona Zica na década de 1960. Foi cantor, compositor, poeta e violonista.
Também trabalhou como tipógrafo, e depois como pedreiro, e foi nas construções que ganhou um apelido por usar chapéu-coco para não cair cimento nos cabelos. Os colegas de obra o chamavam de “cartolinha”, daí logo viria o “Cartola” que todos conhecem.
Mais velho entre oito filhos, nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 10 de outubro de 1908, no bairro do Catete, mas criou-se nas Laranjeiras, onde foi idealizador do Bloco dos Arengueiros, que em 1928 deu origem a Estação Primeira de Mangueira. Sumiu do cenário musical e reencontrado em 1956 voltou a cantar, época em que foi redescoberto por vários intérpretes que gravaram suas canções.
Cartola só gravou seu primeiro disco solo em 1974, aos 66 anos e a partir daí sua carreira tomou impulso e o artista fez shows por quase todo o Brasil até o final da vida em 1980. Torcedor do Fluminense começou a vida artística compondo marchas e logo se tornou símbolo da escola de samba Verde e Rosa. Era parceiro e amigo de Carlos Cachaça, outro ícone do samba carioca.
Através de Mário Reis ficou conhecido, quando o mesmo comprou os direitos da canção “Que infeliz sorte”, que depois foi gravada por Francisco Alves. Francisco comprou os direitos de outras músicas de Cartola, isso o transformou num dos maiores compositores da época. Em 1932, Francisco Alves e Mário Reis gravaram outro samba seu, “Perdão, Meu Bem”.
Também remonta àquela época a amizade e a parceria que Cartola estabeleceu com Noel Rosa. Com o “poeta de Vila Isabel”, compôs “Tenho Um Novo Amor”, interpretada por Carmen Miranda, “Não Faz, Amor” e “Qual Foi o Mal Que Eu Te Fiz”, interpretadas por Francisco Alves. Ainda naquele ano, Sílvio Caldas lançou “Na Floresta”, de autoria de Cartola, do próprio Sílvio e ainda a primeira composição em parceria com Carlos Cachaça.
A respeito de suas canções Cartola teria dito: “Gosto de fazer samba de dor de cotovelo, falando de mulher, de amor, de Deus, porque é isso que acho importante e acaba se tornando uma coisa importante”. Quando conheceu Eusébia Silva do Nascimento, a Dona Zica, sua vida tomou um novo rumo. Antes entregue às bebidas e em estado lastimável, agora Cartola tomava prumo e viveria com a companheira até o fim da vida.
Em 1976 lançou o segundo LP, também intitulado Cartola. O sucesso do disco foi puxado por uma de suas mais famosas criações, “As Rosas Não Falam”, incluída na trilha sonora de uma novela da Rede Globo. Ainda em seu segundo disco, Cartola interpretou suas composições “Minha”, “Sala de Recepção”, “Aconteceu”, “Sei Chorar”, “Cordas de Aço” e “Ensaboa”. Gravou também as canções “Preciso me encontrar” (de Candeia), “Senhora tentação” (de Silas de Oliveira) e “Pranto de Poeta”, de Nelson Cavaquinho. Nesse ano, Clementina de Jesus gravou “Garças Pardas” (parceria com Zé da Zilda).
Sem dúvida “As Rosas não Falam” é sua canção mais interpretada e foi regravada por gente do quilate de Nelson Gonçalves, Emilio Santiago e até pelo roqueiro Cazuza, que era fã declarado de Cartola. Nei Matogrosso também fã do compositor gravou um disco impecável inteiro, com composições de Cartola. Outro fã de Cartola era Renato Fernandes dos Bêbados Habilidosos, que sempre afirmou que artistas como Cartola e Noel Rosa eram suas influências.
Cartola morreu de câncer, aos 72 anos de idade em 30 de novembro de 1980. O corpo foi velado na quadra da Estação Primeira de Mangueira, onde passaram as mais diversas presenças do mundo da música; Clara Nunes, Alcione, Emilio Santiago, Chico Buarque, João Nogueira, Dona Ivone Lara, Nelson Sargento, Jamelão, Roberto Ribeiro, Clementina de Jesus, Martinho da Vila, Gal Costa, Simone, Elizeth Cardoso, Paulo Cesar Pinheiro, Beth Carvalho, Paulinho da Viola, Gonzaguinha, entre muitos outros. Seu corpo foi sepultado no Cemitério do Caju. Dona Zica viu o corpo do seu grande amor pela última vez, abraçada com Clara Nunes, que era amiga e uma das “queridinhas” do poeta.
Uma de suas músicas mais emblemáticas “O Mundo é Um Moinho” é cercada de lendas. A história mais famosa é que Cartola teria feito a música para uma filha de Dona Zica que iria sair de casa para se prostituir, mas há quem defenda que a letra não seria para a enteada e sim para uma decepção amorosa.
De acordo com o escritor carioca André Diniz, autor dos livros “Almanaque do Samba” e “Almanaque do Choro”, entre outros, sobre qual a versão mais famosa corresponde a realidade foi dito: “Segundo pessoas com quem conversei, incluindo a Nilcemar, a enteada de Cartola que hoje está frente do Instituto Cartola, na Mangueira, a história da “prostituição” não condiz com a realidade” e pode ter sido dor de cotovelo mesmo.
Dedico esse texto ao meu tio e padrinho Wilson Aguiar, que me ensinou que samba antigo é o maior tesouro brasileiro, e que me levou a crer que, o samba e o blues são mais próximos do que a gente imagina. Obrigado padrinho. Obrigado Cartola!







