Foto: Midiamax
Longe já se vai o tempo em que grandes projetos como Blues Band, Bêbados Habilidosos e O Bando do Velho Jack começaram pequenos, do nada, e alcançaram fama local e até nacional, arrebanhando gerações de fãs.
Desde então trava-se uma batalha campal (com trocadilho, por favor) para decidir se Campo Grande é a Capital do Blues, do Southern Rock, etc., a mesma que se trava pra saber se o tuiuiú e a capivara são seus.
Não se chegou a veredito algum.
A capivara atravessou a rua, o tuiuiú voou, tem-se grandes nomes do southern em outros Estados e, afinal de contas, o blues nasceu no delta do Mississipi, até onde eu sei….
Campo Grande luta dia após dia por uma identidade que sempre lhe escapa.
E essa luta já não pertence aos mortais, ela hoje é travada, como na mitologia, por deuses, gigantes e titãs. Geralmente, também como na mitologia, o maior beneficiário é o grupo vencedor.
É uma discussão sem fim sobre quem veio antes, o ovo ou a galinha. Aí não sobra espaço para o pato, o ganso, a ovelha, ou quem sabe até para o cão pastor.
A diversidade perde. E diversidade nada mais é que um nome pomposo para abertura, mudança, novidade, inovação.
São os donos do chapéu!
Geralmente, como acontece com os ‘coronéis’ da nossa MPB nacional, só se beneficiam aqueles que ficam sob sua aba. Há aqui, também, uma promiscuidade entre os ritmos regionais e o rock.
Marcelo Nova uma vez disse que o roqueiro brasileiro é engraçado, suas influências são Caetano, Gil e Chico, quando deveriam ser Elvis, Lennon e Page.
Mas por que isso é chamado de promiscuidade e não de diversidade? Porque em Campo Grande isso é uma regra sem exceção, pelo menos aos que almejam o sucesso.
São Paulo que é São Paulo, se pensarmos bem, não é famosa pela diversidade musical e cultural, pela cozinha internacional, pelo seu lado cosmopolita?
Será que a cidade precisa ser implodida e começar de novo pra achar a tal identidade? Ou basta retirar os antolhos e olhar pro lado, abraçar a diversidade e constatar que Campo Grande contempla muitas outras vertentes, ao menos no rock?
O exemplo perfeito do que digo é o do Arizona Nunca Mais, uma banda fantástica de Indie Rock que quando vi pela primeira vez no palco do extinto Barfly jurei que fosse de fora (ó o preconceito!).
Eles são tudo o que você gostaria de ver num palco: peso, energia, química e virtuosismo. E pasme você, após abordar o vocalista, Heitor, descobri que TODAS as canções – recheadas de enredo, imaginação e humor – eram autorais!
Canções suficientes pra pelo menos um álbum completo, compostas no decorrer de apenas um ano.
Não sei se é coincidência, mas logo Heitor abandonou a roupa social tipica do Indie e adotou um chapéu. Na sequência, assumiu os vocais da banda Naip, uma banda de covers famosa localmente, e os shows do Arizona passaram a rarear.
Fiquei sabendo também que naquele início eles participaram de um concurso de bandas em Mato Grosso e levaram o segundo lugar.
Não me surpreendi nada. Aliás, me surpreendi de não terem levado o primeiro!
Enfim, hoje você consegue assisti-los muito esporadicamente em bares considerados ‘alternativos’ em Campo Grande, como o Holandês Voador e o Drama.
Nada de Blues Bar ou Barô. Eles nunca puseram os pés no circuito ‘Mainstream’ da cidade.
Também não posso sair dizendo que, ao se afastarem dos estilos mais harmoniosos à cena local, ao ousarem buscar seu lugar ao sol, ultrapassando a confortável fronteira delimitada pela sombra da aba do Grande Chapelão Divino como um Prometeu, tentando trazer a luz aos mortais, eles tenham sido exilados.
Talvez tenha sido uma opção da própria banda.
De qualquer forma, reina aqui a paz de uma ‘capital provinciana’, como Campo Grande é conhecida.
E isso não tem nada a ver com Rock’n’Roll.
Texto de Juan ‘Abe’ A. Mozart, direto da Espanha para a Confraria Floydstock









