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Amazing Journey: relato Gonzo sobre o show do The Who no festival São Paulo Trip

A aventura tem início momentos antes da viagem a São Paulo, quando o herói adquire a consciência de que fará parte de algo transcendental e é arrebatado pelo desejo de adquirir uma bandeira da Union Jack. A busca, que redunda em coisa nenhuma, envolve uma peregrinação em companhia de sua amada pelo Shopping Bourbon, na mesma quadra do estádio do Palmeiras, inclusive por setores de cama, mesa e banho e, por sugestão de um dos donos do Pub Presley, na Vila Madalena (que ostenta bandeiras da França e dos Estados Unidos em sua decoração), uma mensagem via whatsapp a uma tal ‘Maurrien Bandeiras’, pedindo orientação sobre possíveis fornecedores, cuja resposta limitou-se a um seco ‘Não faço idéia!’.
O acampamento é montado em local estratégico,
na Rua Cotoxó, 469, no bairro de Perdizes, segundo alguns, ou Pompeia, conforme outros, ou ainda um terceiro de que não me recordo pois foram tantas opiniões quanto foram os passeios de táxi e über. A chegada na véspera da apresentação foi essencial para medir as distâncias, descobrir onde estava a entrada para a pista do estádio Allianz e principalmente pra saber onde poderíamos nos abastecer após altas horas da noite, ao fim do espetáculo e da nossa incrível jornada, que até então não parecia nada incrível.
O herói fora escolhido por suas qualidades céticas beirando o pessimismo, avultada pela completa ignorância e total desinteresse sobre os detalhes da apresentação. Somando-se isso à idade dos remanescentes da banda, Pete com 72 anos e Roger com 73, tudo não passaria de um pequeno memento para compartilhar com os netos, isso se nosso rabugento herói pretendesse ter netos, o que
definitivamente não é o caso.
Então, às quatro da tarde do dia 21 de setembro de 2017, adentramos os portões. Um pouco cedo demais para o início de qualquer espécie de ação no interior do estádio e, portanto, com tempo de sobra para admirar sua majestade enquanto este ainda se encontrava relativamente vazio, sofrer o interminável assédio dos vendedores de bebida e tornar-se íntimo, ainda que a contragosto, de boa parte da história profissional e pessoal de Seu Orlando, do staff do show.
Quando finalmente cedemos à irresistivel e brilhante estratégia de venda de bebidas da Itaipava dentro do Allianz, vulgarmente conhecida como Monopólio, com um certo sentimento de piedade pelos dez reais, que se dissipou após a  primeira lata, pudemos enfim relaxar e esperar mais uma caralhada de tempo (felizmente, eu e minha parceira desenvolvemos um sistema divertido e confiável para contabilizá-lo em
latinhas de cerveja).
Um dos detalhes que ampara a minha teoria de que o show do The Who em São Paulo foi superior, entre outros tais como a dimensão do estádio e a quantidade de bandas, foi a estrutura do festival São Paulo Trip e sua pontualidade, britânica como os headliners da noite!
Às 18h15, conforme o cronograma, a Alter Bridge tocava seus primeiros acordes. Com nada que nos interessasse na banda além da divertida semelhança do vocalista com o Kevin Bacon, e também com o Loki interpretado por Tom Hiddleston (Elisama o achou mais parecido com o Bacon enquanto eu tentava persuadí-la da cólera dos deuses nórdicos que não são devidamente adorados, talvez sob influência do nosso método de contagem do tempo), ainda mantínhamos nossos pés firmes no gramado do Allianz.
A atmosfera mudou com a entrada, após
irrelevantes 5 minutos de atraso, do The Cult. A partir daí adentramos no terreno das especulações, como se espera de um grande show e na presença de lendas, pois é difícil ser imparcial diante da presença parte fascinante parte intimidadora de Ian Astbury. E com que firmeza. E com que autoridade. Que show do caralho!
Minhas piores desconfianças iam sendo varridas. De qualquer forma, o ingresso já se havia pago.
Abro aqui um pequeno parêntese no tempo. Mas não daqueles que se fecham, pois ele irá desembocar mais adiante, na descrição da parte principal do relato.
Nosso itinerário pela pista havia começado ao lado direito da mesa de som, pertinho do final da pista VIP, assim que a Alter Bridge entrou no palco. Antes do encerramento desse primeiro show, Elisama manifestou o desejo de ir ao banheiro no intervalo. Confesso envergonhado que tentei
convencê-la a aguardar o início da apresentação seguinte, quando as filas estivessem menores, tamanho o meu desânimo com o primeiro terço do espetáculo (nada contra a AB, só não compartilho, com todo o respeito, do apreço por essa vertente do rock).
Todos os meus planos e projetos começaram a ruir com a entrada de Ian Astbury, quando começávamos a subida da rampa de saída em direção aos banheiros.
Daí em diante (tirando a necessária ida ao banheiro) nossa movimentação pela pista seguiria uma trajetória errática, levada em parte pela curiosidade provocada pela variação dos efeitos de luz nos diferentes pontos do espaço, bem como pela necessidade de mais cerveja conjugada com a fascinação pela figura e performance de Astbury, que nos forçava a parar, exclamar e pular (só a Elisama pulava realmente, eu me guardava para o show do Who, fosse como
fosse. Felizmente posso dizer que fui sábio em fazê-lo, pois necessitei de cada fôlego armazenado).
Fomos parar logo atrás da mesa de som. A visão do meio do palco havia me agradado bastante, e por mim teria ficado bem atrás,  com todo espaço pra pular e cantar sem empurra-empurra.
Mas como a própria Elisama disse quando analisamos o show em retrospecto, ela havia se dado conta de algo que pra mim ainda permanecia ignorado: uma certa energia que percorria o público.
A coisa começou a se esclarecer quando num vídeo introdutório a imagem de Keith Moon apareceu com as datas de seu nascimento e morte, seguida de aplausos e ovação da platéia. Até então nosso herói seguia desgostoso com a subversão de seus valores pelo mundo atual, subversão que no contexto desta peripécia seria representada à perfeição pela conspiração que
envolvia seus ídolos e o Estado vizinho do Rio de Janeiro, onde uma das milhares de bandas tributárias do Who teria preferência sobre este na hierarquia do palco.



Inconscientemente eu compartilhava da tal energia diagnosticada pela Elisama momentos antes do show, mas olhar praquela cena em retrospecto me soava como a lembrança da véspera de algum acidente trágico, de algo poderoso mas igualmente desastroso. Eu não conseguia exprimir o sentimento e muito menos sua causa. Não até a entrevista concedida por Pete Townshend ao canal Multishow, que cobriu a apresentação do The Who no Rock’n’Rio. Mas vamos deixar isso pro final?
A bendita energia me contaminou, e fulminou,  quando a banda subiu ao palco e sem rodeios introduziu o show com Can’t Explain. Meu projeto de assistir ao show diante do palco mas no fundo da arena, com bastante espaço pra minha
contemplação passiva foi violentamente substituído pelo desejo de chegar o mais perto possível do palco e ‘participar’ do show, desejo que minha parceira interpretou pelo simples olhar e tratou de providenciar aos empurrões no sentido lateral-direito à mesa de som.
O que o The Who havia preparado, e obviamente escapava às minhas expectativas mais ambiciosas era uma ‘obra de arte completa’ (gesamtkunstwerk), fazendo interagir som e imagens no telão até então estático; fazendo interagir ainda, em alguns momentos de um clímax indescritível, a própria banda com as imagens do telão. A emoção acabou se sobrepondo ao raciocínio conforme esperado, mas eu acredito ser possível, se e quando o DVD do show for lançado, analisar a curiosa interação entre banda/som/telão e descobrir algum enredo por trás, um ‘Leitmotiv’ capaz de dar um sentido global à apresentação (o que poderia explicar
porque não houve variação entre os setlists de São Paulo e Rio de Janeiro).

Talvez o plano fosse compensar com imagens a performance dos septuagenários remanescentes da banda, mas se era essa realmente a intenção,  esse Plano B jamais precisou ser acionado, pois a impressão que ficou e acabou por exterminar minhas últimas suspeitas pessimistas foi que o tempo não passou para Roger e Pete.

E esse é o sentido da estória!
Nosso combalido herói retorna com fé renovada. Seu ídolo, Pete, havia restabelecido a ordem em seu pequeno mundo com algumas simples lições:
1. Faça o que você ama, e chegue aos setenta e dois anos com o semblante maroto de quem acabou de descobrir a própria vocação;
2. Não abra mão de seus princípios, e explique à platéia que o assiste pela primeira vez em cinquenta anos que ela não ouvirá apenas uma seleção de hits para seu deleite, e ‘iremos
executar três canções de Quadrophenia (quer vocês concordem ou não)’;
3. Foda-se o Rock’n’Rio, a opinião alheia e tudo o mais que é transitório no mundo! Quando você for consagrado, e todo o estilo e atitude que você criou forem assimilados sob os rótulos de punk e hard rock, nada disso importará.

A entrevista que mencionei me perturbou bastante, por ser a mais pura expressão da verdade que teimamos em ignorar: o rock como o conhecemos irá acabar quando estas poucas vozes restantes, como Pete Townshend,  Roger Waters e Paul Weller silenciarem.
Resta saber o que faremos a partir daí. Pete já deu mostras de que não pretende mais continuar com o The Who.



Pelo Confrade Renato Azambuja.
Fotos por Elisama, via cel.

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