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Sepultura se despede de Campo Grande com show avassalador

Turnê “Celebrating Life Through Death” passou pela capital sul-matogrossense no último final de semana

Por Renato Azambuja

No passado sábado, 17, Campo Grande-MS assistira ao triunfo da vontade. No dia da inconcebível morte de Silvio Santos, homenageado do palco por Andreas Kisser, a quarentona Sepultura celebra em Campo Grande a sua turnê de despedida, “Celebrating Life Through Death”, em mais um bem-sucedido evento produzido pela EPF Produtora. De todos os porquês que sempre cercam a decisão mais difícil em qualquer sociedade – o seu fim – o que menos se costuma ouvir é o mais importante: o objetivo foi cumprido. Esse, felizmente, é o caso do Sepultura, que ainda suplantou seus planos mais ambiciosos.

A única banda brasileira que chegou lá, materializando não só os próprios planos mas o de cada pivete que empunha ou empunhou um instrumento musical, o de cada fã que emula os heróis à frente de um palco ou na solidão do quarto, o de cada brasileiro que persegue a excelência em sua arte mirando-se nos melhores.

Com 50 milhões de álbuns vendidos e contando, aclamado mundialmente, o Sepultura desceu ao inferno, viu formar-se uma fila de fãs ávidos por substituir seu vocalista original, dentre eles alguns gringos famosos. Reinventou-se com Derrick Green a bordo, de quem mais tarde partiria a ideia de musicar a Divina Comédia, e cuja estatura poderia ter inspirado em Dante Alighieri a descrição do anjo caído no nono círculo do inferno. Se Derrick não trazia o corpo de Judas entre os dentes, tornou-se assim mesmo um barulhento lembrete para Max Cavalera da suposta traição de que foi vítima no seio da própria banda.

E até hoje a banda segue importando e exportando talentos de nível mundial, um fenômeno comum da globalização nos dias de hoje, mas bastante irreal à época de sua fundação.

Caos, Distopia, apocalipse, inferno. Com um ritmo tão acessível quanto o punk, que impulsionou uma geração de bandas nacionais nos anos 80, um ritmo tão prenhe de possibilidades que fala ao coração e mente de qualquer adolescente, o Sepultura não apenas incorporou como ajudou a construir o imaginário do metal. O Sepultura cresceu com ele, arrematando-o com um tempero genuinamente brasileiro.

Com a acústica estridente do ginásio Guanandizão, que convém a uma catarse coletiva, o Sepultura entregou o prometido, uma performance insana, coroada pelas lembranças daquela geração do rock nacional também na casa dos quarenta, e que ali se fez massivamente presente na década de ‘80. O mais brasileiro de todos da banda, o palmeirense Derrick Green, oscilando todo o tempo entre a figura intimidante e o anfitrião despretensioso, ora chocalhando as estruturas com suas trovoadas, ora interagindo com tiradas de boteco em português; Andreas Kisser comovente e comovido, transitando pra lá e pra cá no palco, cumprimentando o tradutor de libras com um soquinho, provocando e reverenciando a plateia, e impecável na guitarra.

E foi no puro sentimento de gratidão, sem o devido conhecimento de causa, que ousei fazer essa pequena resenha. Isso é mais um mérito do Sepultura, que além de tudo é um fenômeno pop, segundo a definição de banda cujo sucesso ultrapassa o próprio nicho congregando fãs de todos os estilos. Eu sou um fã de progressivo mas também me considero um filho de Roots. Fui ao show atrás de Attitude, Ratamahatta e Roots, Bloody Roots, mas saí com muito mais.

A única diferença entre o homenageado e a banda é que, apesar de erigir um império, o indivíduo Silvio Santos jamais foi ultrapassado, enquanto os indivíduos do Sepultura construíram um império que conquistou a eternidade.

https://videos.files.wordpress.com/hOjsrdnl/sep-v-cg-1.mp4
https://videos.files.wordpress.com/hNLhVTZP/sep.mp4
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