Em 2015, Roger Daltrey quase morreu de meningite viral. Quando ele se recuperou, o vocalista do The Who voltou para a estrada, mas também decidiu que era hora de “terminar essa maldita coisa” – a coisa sendo seu livro de memórias, “Thanks a Lot Mr Kibblewhite“, publicado em outubro.
A autobiografia foi elogiada nas críticas como “uma das melhores autobiografias recentes do rock”, por ser “espirituosa” e até mesmo por ter “significado”, acima e além do habitual tell-all¹. Enquanto isso, Daltrey fez o que ele sempre faz. Ele voltou ao trabalho – no estúdio com Pete Townshend para gravar o primeiro novo álbum do Who em 13 anos e no palco aos 74 anos para uma nova turnê do Who com início em maio.
O livro capta perfeitamente a voz de Daltrey – seu humor, sua atitude desafiadora e sua avaliação rude de si mesmo e de outros -, mas também mostra um lado indulgente do ícone agressivo, mesmo para com as pessoas que o enganaram, incluindo os ex-empresários Chris Stamp e Kit Lambert.
Daltrey capta o que a vida do rock significou para ele e por que ele ficou longe das drogas e forçou seus companheiros de banda no The Who – uma das maiores, mas também mais disfuncionais de todas as bandas de rock – a ficarem limpos e trabalhar mais. (Ele às vezes era violento e nem sempre bem-sucedido nessa abordagem).
Há uma abundância de grandes histórias por trás dos bastidores, mas isso não é uma biografia do tipo, “E nesta sessão de gravação …”. “Não é apenas uma série de eventos“, diz Daltrey. “É o que eu passei emocionalmente, enquanto esses eventos estavam acontecendo, e o que eu tentei fazer como artista e cantor.“
Em outras palavras, à beira de subir ao palco mais uma vez com seu parceiro de disputas musicais, as memórias de Daltrey se esforçam para responder à pergunta mais famosa de Pete Townshend: quem é você?²
A biografia de Pete Townshend, “Who I Am”, tem bem mais de 500 páginas, enquanto o seu livro chega a menos de 250. Esse contraste foi consciente ou essa abordagem direto-ao-ponto é um reflexo de quem você é?
O livro reflete quem eu sou. É sobre mim e minha personalidade. Não é um livro sobre o The Who; é a minha jornada. Parte disso é sobre como eu lidei com os problemas que foram levantados pela banda. Os fãs do Who estão desapontados porque eu não falo de música o suficiente, mas falar de música é tão … chato quanto lavar a louça.
Eu não queria fazer o livro de sexo, drogas e rock ‘n’ roll, porque uma vez que você foi a uma festa e usou um monte de drogas – o que eu não fiz de qualquer jeito – bem, esses livros podem ser um tanto vazios de certa forma. E quanto você pode falar sobre sexo? É apenas maçante. Eu não … ninguém famoso.
Roger Daltrey, do The Who, à esquerda, e Pete Townshend tocando com o baterista Kenney Jones em 24 de junho de 1980, na Los Angeles Sports Arena. (George Rose / Los Angeles Times)
Sua personalidade costumava ser de uma arrogância à prova de balas – e nós vemos você socando Keith Moon e Pete Townshend em diferentes ocasiões. Ainda assim, você se mostra mais sensível e vulnerável. Você queria que seus fãs te vissem sob uma luz diferente?
Eu estou apenas sendo honesto. E sou sensível. É por isso que eu sou um ótimo cantor. Para ser um grande cantor, você precisa ter empatia com as palavras que está cantando, e você não pode fazer isso, a menos que seja incrivelmente sensível. Embora eu também seja alguém que revida … e é por isso que houve alguns anos lá atrás, onde eu posso ter ido por um caminho completamente errado.
Pete é frequentemente descrito como o intelectual do rock, mas você também tem um pouco de polímata. O livro aborda isso – em um ponto você cita um artigo sobre “Efeitos do Canto em Grupo e da Performance para Cantores Marginalizados e de Classe Média” – mas você tem muitos interesses que mal são mencionados. Por que você não aprofundou mais esses seus lados?
Eu fiz tantas coisas na minha vida. Entre as turnês eu não era uma pessoa ociosa. Então eu construí lagos do nada, com um par de escavadeiras que estavam sempre quebrando. Passamos tanto tempo nos arrastando na lama. Nós tivemos quatro fazendas de peixes. Tornei-me um fazendeiro de trutas e depois me interessei pela ciência envolvida e pela limpeza dos rios. Tem havido muitas más práticas nos rios da Inglaterra. Eu fiz isso por 20 anos. Eu realmente aprendi sobre o assunto e hoje temos salmão de volta no Tâmisa. Há todos os tipos de coisas de que eu tenho muito orgulho. Mas pode ser muito chato falar de peixe. As pessoas estão pouco se … sobre os peixes.
Houve grandes histórias que você cortou?
Há tantas anedotas, mas a maioria delas está por aí. Você pode continuar para sempre contando histórias sobre Keith Moon. Eu não queria fazer isso.
Seu relacionamento com Keith era muitas vezes difícil. No livro, olhando para trás, você vê suas histórias de destruição como menos engraçadas e mais trágicas, incluindo a vez em que ele acidentalmente atropelou e matou seu guarda-costas quando estava tentando fugir de uma multidão. Os fãs do Who estão abertos a repensar os mitos que eles apreciam?
Os fãs querem ouvir o que querem ouvir, e eu realmente estou pouco me… Essa é minha perspectiva. Keith era, em muitos aspectos, incrivelmente trágico. Depois que tivemos a briga na Dinamarca [sobre a performance drogada de Moon no palco], ficamos muito distantes por dois ou três anos. Mas no final eu era um dos mais próximos dele. Heather, minha esposa e eu fomos os últimos a atender os telefonemas de um choroso Keith Moon às 4 da manhã.
The Who, da esquerda, Roger Daltrey, Pete Townshend, John Entwistle e Keith Moon em uma foto sem data dos anos 70. (AP)
Você reconta alguns momentos difíceis com John Entwistle. Enquanto você o chama de “gênio”, você também menciona que seu ego desenfreado o fazia tocar muito alto para você e Pete. Ele era mais difícil de se aproximar?
Sim. Nós chamamos John de “The Ox³” e era um nome adequado porque ele era muito teimoso. Você não poderia mudar nada sobre John Entwistle. Ele seria um astro do rock e viveria como um astro do rock, mesmo que não tivesse dinheiro. Por isso, sempre estávamos resgatando ele.
Você sente satisfação com o fato de que depois de anos de discussões, você e Pete se aproximaram mais à medida que envelheciam?
É um relacionamento estranho. Nós não somos próximos como amigos que saem juntos. É como uma coisa de família, como irmãos. Embora eu nunca tenha tido um irmão. Mas talvez não seja assim. É algo realmente especial. Talvez não haja uma palavra para o nosso relacionamento.
Pete leu o livro?
Eu não sei. Eu não li o livro dele. [Ele ri com vontade]
Realmente, eu deliberadamente não leio nada escrito sobre mim, e eu não queria ler qualquer coisa que ele pudesse ter escrito que entrasse na minha cabeça.
O que vem a seguir?
Meu maior plano é começar um filme sobre Keith Moon. É muito difícil porque não quero fazer um filme biográfico. Eu quero fazer um ótimo filme. Todos parecem cair na mesma armadilha, exceto pelo de Brian Wilson, “Love and Mercy”, que foi ótimo. Nós estaremos trabalhando em um novo roteiro. Eu chegarei lá; Eu tenho a visão de como eu quero que seja.
Eu também vou lançar um álbum ao vivo do meu show “Tommy” que eu acabei de fazer com uma orquestra, para o 50º aniversário de “Tommy”. É assim que “Tommy” deveria sempre ter sido tocado – com orquestrações e com a banda.
Um erro que as bandas de rock fazem é quando eles só têm orquestras tocando o “estofo”, como eu as chamo, músicas que poderiam ser tocadas em um sintetizador. Este “Tommy” foi arranjado corretamente com peças orquestrais e percussivas que se erguem sozinhas. Não há nada de esquisito lá dentro.
Outro erro que as pessoas cometem é tirar o rock. Quando Pete fez “Quadrophenia” com uma orquestra, mas sem a banda de rock, tirar o rock de “Quadrophenia” foi, para mim, um anátema. Não fazia sentido.
Mas você coloca os dois juntos, isso se torna enorme. Eu fiquei realmente impressionado com o resultado. É triunfante.
Desde a última vez que conversamos, você confirmou um novo álbum e uma turnê com o Who. Como essa turnê será diferente? Você mencionou que Pete estava menos interessado em lados ‘b’ como “A Quick One” que os fãs obstinados adoram ver ao vivo.
Ele está chegando a isso agora porque fizemos todas as outras coisas. Nos meus shows solo eu toquei “How Many Friends”, “Dreaming from the Waist”, “Athena” e outras músicas que o Who nunca tocou. Pete não toca “Blue, Red and Grey”, mas eu adoro e vou tocar. Estamos conversando agora e trazendo ideias.
The Who ainda tem seu vocalista e guitarrista. Há outra banda antiga que ainda tem um baixista e um baterista. Você formaria um quarteto na estrada com Paul McCartney e Ringo Starr, tocando músicas como “Can’t Explain” e “I Saw Her Standing There”?
[Risos] Eu vou ver Paul em breve, mas não acho que funcionaria. Eu não acho que você poderia misturar nossa música e a música dos Beatles.
1. Relato escrito que contém informações reveladoras e por vezes escandalosas;
2. Who Are You;
3. O Boi;
Traduzido pelo confrade Renato Azambuja via L.A. Times