Prólogo pelo confrade Renato Azambuja, o Dali.
Choca-nos ouvir dizer sobre como as coisas eram conduzidas durante o reinado do onipotente Henrique VIII, rei da Inglaterra de 1509 até sua morte, em 1547.
Ainda mais notórias são as peripécias de alcova do rei e suas seis esposas, um desfile macabro envolvendo dois divórcios, duas decapitações, uma morte e um incontável números de amantes.
Isso, contudo, pensamos, mal ‘nos diz respeito’!
Numa sociedade moderna e igualitária, plena de direitos e garantias, seria impensável que – como a mais famosa esposa de Henrique VIII, Ana Bolena – uma mulher inteligente e espirituosa, educada nos salões da corte francesa e versada em música e dança, vivesse não só à sombra do marido, mas levasse toda a culpa, perante os súditos, pelos desmandos do monarca.
Infelizmente, todavia, podemos citar inúmeros casos semelhantes e bem mais atuais como o de Yoko Ono, por exemplo, uma artista plástica de vanguarda já consagrada ao tempo em que conheceu John Lennon.
Após levar toda a culpa pelo fim do já esfacelado relacionamento dos Fab Four, Ono foi sumariamente executada pela mais moderna máquina de decapitação: a opinião pública!
Em sua busca obsessiva por um herdeiro do sexo masculino, Henrique virou as costas à Santa Sé tão logo Ana Bolena engravidou, anulando seu casamento com Catarina de Aragão.
Frustrando as expectativas reais, Bolena deu à luz Elizabeth, considerada a maior rainha da Inglaterra. Após dois abortos espontâneos, Henrique decidiu que a paixão avassaladora que havia nutrido por Ana fora produto de bruxaria. Mais duas falsas acusações, adultério e incesto (acusada de manter relações sexuais com o próprio irmão), selaram seu destino.
Suas últimas palavras endereçadas ao rei foram “…mas eu peço a Deus que salve o rei e o conceda muitos anos de reinado, pois um príncipe mais gentil e misericordioso nunca houve; e para mim ele sempre foi um senhor gentil e soberano.”
Numa época em que o individualismo era tratado como doença, Ana Bolena escolheu por epíteto ‘A Mais Feliz’, em franco contraste com os lemas escolhidos por Catarina de Aragão (‘Humilde e Leal’) e a mãe de Henrique VIII, Elizabeth de York (‘Humilde e Reverente’), meros elogios ao rei.
Embora apaixonada, sua decisão (e incrível coragem) de não se entregar ao rei antes do casamento foi o produto de uma lição que aprendera às custas da reputação da irmã, Mary, ex-amante de Henrique, também num tempo em que qualquer preocupação com a própria reputação deveria pairar milhas abaixo da divina vontade real.
O EP “Ann, Chapter 1: Anne Boleyn”, por André Floyd:
Algumas obras nascem da superação e transposição de obstáculos, o que as fazem nascer de um parto mais solene e as tornam mais grandiosas.
É este o caso deste EP que marca o retorno da frontwoman Dianne Van Gierbergen às suas origens, ou melhor, a sua banda original Ex Libris, agora com nova formação, mas exuberando toda a categoria do melhor do metal progressivo com oportunos pingados de elementos sinfônicos e operísticos, aparecendo principalmente na linda voz soprano de Dianne.
Viabilizado através de um financiamento coletivo que atingira 114% da meta, “Anne Boleyn” é o primeiro capítulo de uma trilogia de EPs que dará origem a um todo, um álbum inteiro, que sempre tematizará sobre uma mulher de alta relevância para o mundo, uma “ANN”.
E a controversa rainha da Inglaterra Ana Bolena, segunda esposa do rei Henrique VIII fora a primeira “ANN” escolhida para iniciar o trabalho com três das mais intensas canções que a música pode ser capaz de entregar.
Trata-se de uma verdadeira montanha-russa musical em três atos, onde aqui no caso o ouvinte já começa no alto, através da primeira canção “The Courtship“, uma ode eruptiva apresentando a chegada de Ana Bolena à corte bretã e sua corte ao rei Henrique VIII e vice-versa, capaz de enfrentar as normas do Vaticano da época para selarem uma união.
“The Courtship” é maravilhosamente intensa e traz a majestosa cantora geminiana Dianne Van Giersbergen berrando ardentemente lindos cantos sônicos como se irrompesse um casulo no qual se encontrava e encarnasse diretamente no ego de Bolena, tomando para sí todas as suas emoções.
A música eclode em guitarra e teclado em pegada rascante, nada poderia ser mais prog metal e apropriado para abertura do disco.
Em seguida chega uma das mais belas canções que esse escritor já ouvira ao longo de seus quarenta e quatro anos de vida e que o marejou: “The Miscarriage” mergulha o ouvinte na mais obscura, densa e amarga aflição desesperadora, inspirada em um dos abortos espontâneos que acometeram Ana Bolena.
Em cadência lenta, mas não menos intensa, nem um pouco mesmo, esta canção fora feita realmente para Dianne cantar. Cantar não, arrebentar, como se a própria Bolena baixasse nela e entoasse todo o seu brado melacólico-indignado. Dianne consegue mergulhar suas cordas vocais nas profundezas da dor “bolênica”, com seus gritos de “Why…” trazendo o pavor de perder o herdeiro do rei que poderia lhe assegurar seu amor e até mesmo a sua própria vida que entraria logo em xeque.
“Why have you taken him from me?
Why has fate such ravenous teeth?“
“Por que você tirou ele de mim?
Por que o destino tem dentes tão vorazes?“
No terceiro e último ato desta curta obra, “The Beheading” nos remete à calmaria do violão celta que nos conduz também ao fim da história, quando acusada de incesto com o próprio irmão (?), Bolena é condenada pelo rei e marido à decapitação em público e ainda assim como de praxe é obrigada a bendizer o rei e algoz.
E a calmaria subitamente é golpeada pelo turbilhão guitarrístico com o canto voraz de Dianne pautando a canção que posteriormente deságua numa linda sequência melodia-canto até o seu fim súbito, tal qual um corte.
Concluindo, eu nunca tinha por hábito dar grandes importâncias a EPs, considerando-os sempre um diminuto agregado de poucas canções, porém “Ann, Chapter 1: Anne Boleyn” veio sem cerimônia quebrar tal errônea impressão, tamanha a sua intensidade e relevância.
E o melhor é que tudo isso é ainda somente a terça parte de um promissor e vindouro todo.
Aguardemos as outras duas vindouras “ANN”s.
Clique na imagem abaixo e ouça no Spotify:
Tracklist:
1 – “The Courtship“
2 – “The Miscarriage”
3 – “The Beheading”
A Banda:
Harmen Kieboom – Drums
Koen Stam – Keyboards
Dianne van Giersbergen – Vocals
Bob Wijtsma – Guitar
Luuk van Gerven – Bass guitar