Ícone do site Confraria Floydstock

A lírica engajada do Pink Floyd: Primeiras aproximações

Resumo: Nesta postagem faço uma breve introdução ao tema da banalização da vida nas canções do Pink Floyd, tema que pretendo explorar atentamente em postagens futuras. Nesse primeiro texto, a intenção é circunscrever o ponto de partida das análises a serem dedicadas a cada álbum.

A intenção de publicar esse texto nasceu quando superei a frustração das primeiras audições do disco “Is this the life we really Want”, lançado esse ano por Roger Waters, principal letrista do Pink Floyd. Inicialmente, o disco me pareceu insosso; nada muito promissor para um dos maiores nomes da indústria da música. Nas primeiras vezes que ouvi, as canções soaram demasiadamente impregnadas por uma nostalgia; sentimento que eu atribuía aos efeitos sonoros, muitas vezes semelhantes aos discos do Pink Floyd. Talvez a expectativa nutrida durante os meses que antecederam o lançamento foi a causa de uma decepção apressada. Seguidas audições e contextualizações fizeram com que eu mudasse de opinião. Enfim, pude apreender a áspera atmosfera de ressentimento, melancolia e revolta que costuram as canções, e o mais recente trabalho de Waters passou a me soar como uma obra necessária. Infelizmente, preso em meio a finalização e defesa do mestrado, seguida da redação do projeto de doutorado tive que adiar a redação. Com isso, àquelas primeiras impressão se juntaram outras tentarei sintetizar nas linhas que se seguem.

Evidentemente não quero esgotar os sentidos das canções floydianas, tampouco limar as visões, os afetos e memórias particulares que idividualmente nutrimos por elas. A intenção é conjecturar partindo daquilo que absorvi da música, da história e demais materiais envolvendo a trajetória da banda e particularmente de Waters, a fim de oferecer um quadro possível, porém, coerente com os discos e trajetória da banda. Se não for assim, então, terei perdido a perspectiva e me equivocado. Pretendo explorar o aspecto crítico das letras do Pink Floyd em busca de uma chave de interpretação que possibilite expor algumas dos temas mais caros para o próprio Roger Waters:

o potencial que os seres humanos possuem para reconhecer a humanidade do outro e sua resposta a isso, com empatia, e não com antipatia” (Citado por Jonh Harris, p. 9)[1].

Desde que assumiu a dianteira do Pink Floyd, em parceria com Gilmour, Right e Mason, Roger Waters passaria a construir em versos e melodias uma teia de críticas que depõe contra a banalidade da vida cotidiana. Esse tema de fundo está implícito em todas as suas canções e a partir dele se pode alinhavar o “The Dark Side of the moon” ao recém lançado “Is This The Life We Really Want?” . Isso, contudo, não significa reduzir a temática de todas as canções composta por Waters a esse assunto. Trata-se aqui de colocar suas canções em perspectiva a fim de reconstruir a teia lírica onde todas as canções aparecem conectadas pela crítica ao modo de vida moderno.

Se, com efeito, à frente do Pink Floyd, Roger Waters tratrou de abordar musicalmente a busca pelo melhor que há em nós, será impossível ouvir suas canções sem imaginar e sentir o desconforto perante o tédio, a tirania e a banalidade da realidade cotidiana. Cada uma de suas músicas traz consigo a exaltação à busca aguerrida por alguma conclusão que vença o tédio e dote a existência humana de algum sentindo universal. Trata-se, então, de reconhecer criticamente que estavam ( e talvez ainda estejamos) todos chafurdados numa era de miséria, guerras e conflitos. Conforme dizia Drummond, “o tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinação e espera. O tempo pobre o poeta pobre fundem-se no mesmo impasse” (A flor e Náusea). Vivendo em uma era na qual as feridas da segunda guerra ainda estavam abertas e a suspeita convivência pacífica em que as potências econômicas e bélicas da época (EUA e URSS) disputavam territórios e mentes, as canções do Pink Floyd conduzem a uma imersão estética sem par na história do Rock e, por isso mesmo, elevaram o estilo ao patamar das grandes obras de arte da humanidade. Afinal de contas os discos Floydianos plasmam uma parte da sua realidade e fundem seus músicos e a sua época num mesmo impasse: a banaldiade das relações e ausência de empatia.

Mesmo o ouvinte menos versado na história do Pink Floyd reconhecerá que a guerra, os conflitos cotidianos e outros temas universais são caros à banda, principalmente à Roger Waters. Isso fica claro na atualização que Watters fez do “The Wall”, cuja turnê foi registrada e lançada em vídeo numa mescla de documentário e show. Esse material deixou claro também que a personalidade artística de Roger Waters, talvez sua própria vida, é decisivamente marcada pela Guerra. Waters perdeu seu avô e seu pai na primeira e segunda guerra respectivamente. Talvez tenha sido esse o motivo de muitas de suas letras, principalmente aquelas executadas na ópera rock “The Wall” e no “The Final Cult”, abordarem a violência e a tirania em todas as suas versões. No entanto, uma audição mais detida revela que a guerra é “apenas mais um tijolo no muro”. Nesta e em postagens futuras pretendo fazer alguns apontamentos nesse sentido. Para não cansar o leitor, tentarei discorrer de forma genérica e sem empreender análises mais detidas, pelo menos não nessa postagem que é dedicada a abranger a proposta e indicar a crítica impetrada pelo Pink à banalidade da vida cotidiana em forma de música.

Como se sabe, a crítica especilizada considera o “Dark Side” como aquela obra em que Pink Floyd atingiu sua maturidade tanto musicalmente, como naquilo que diz respeito às letras. Desde já fica indicado que os álbuns lançados entre a fase liderada por Syd Barret e o “Dark Side” se caracterizam como uma espécie de período de transição; Momento em que os integrantes do Pink Floyd procuravam por uma nova identidade, além de definir por quais rumos prosseguir. E mesmo sendo uma fase transitória, valores substanciais foram realizados e consolidados. Por exemplo, a principal canção a ganhar vida nesse período, “Echoes”, traz consigo vestígios do espírito que se tornaria o distintivo do Pink Floyd nos anos subsequentes. A faixa principia por descrever “eco de uma maré distante” ganhando movimento em meio a um bucólico cenário oceânico até tomar conta do ambiente ao redor. E, então, introduz o centro lírico e, por assim dizer, filosófico de todas as canções do Pink Floyd. Dizem os versos:

Strangers passing in the street/ By chance two separate glances meet / And I am you and what I see is me/ And do I take you by the hand /And lead you through the land /And help me understand the best I can /And no one calls us to move on /And no one forces down our eyes/ No one speaks/ And no one tries/ No one flies around the sun.

Tradução livre:

Estranhos passando na rua/Por acaso, dois olhares separados se encontram/E eu sou você e o que eu /vejo é eu/E eu levo você pela mão/E levá-lo através da terra/E me ajude a entender o melhor que posso/ E ninguém nos chama para seguir em frente/E ninguém força nossos olhos/Ninguém fala/E ninguém tenta/Ninguém voa ao redor do sol.

Quando estranhos passando pela rua se reconhecem mutuamente num olhar de relance, é sinal de que trazem consigo alguma coisa em comum. Ao seu modo, “Echoes” retoma o mote da empatia, a solidariedade entre desconhecidos que atravessando o tédio e a banalidade enlaçam, verdadeira ou metaforicamente, suas mãos, reconhecendo-se como um só e se conduzem pela terra, sem falas e sem mentiras. Notadamente, “Echoes” introduzira a tônica de toda a trama floydiana, aquele reconhecimento da empatia emplacado na fala de Waters citada no início desse texto. No entanto, para fora das expectativas poéticas e musicais do Pink Floyd, o tempo era ainda de fezes, e todo potencial humano para a empatia embargado na garganta ganharia vida com canções que mimetizariam a solidão numa era marcada por uma série de dilemas que corrompem a atordoa a subjetividade. O “Dark side” veio a público descortinar o estado de espírito de uma época, o pós guerra e o fim das esperanças socialistas tornadas decrepitas graças ao stalinismo.

A respeito do sucesso e atualidade do disco, Roger Waters especulou: “Suspeito de que parte da razão pela qual o disco ainda está aí sejam as sucessivas gerações de adolescentes que parecem querer sair e comprar ‘The Dark Side Of The Moon’ enquanto seus hormônios principiam a ferver nas veias, e eles começam a se rebelar contra o status quo”, e acrescenta: “é legal, se ocupar da difícil tarefa de descobrir sua própria identidade. E é bom pensar por si mesmo” (Citado por Harris, p. 8). Esse pensar por si mesmo não vem numa chave aberta onde toda sorte de opinião é igualmente válida. Só existe uma única possibilidade de entender esse “se rebelar contra o status quo”, a saber, a completa aversão ao autoritarismo, à tirania política e individual. Essa temática está presente em “Dark Side”, mas será retomada também no “Animals” e em todo o “The Wall”, aliás esse último é por assim dizer uma síntese de todos os temas que o Pink Floyd abordara em suas composições e, ao mesmo tempo, faz um balanço das preocupações éticas, políticas e psicológicas de Waters. É sabido que o “Dark Side” versa sobre temas universais: Morte; insanidade opulência, pobreza guerra e paz, entre outras coisas. Desta feita, enseja uma áspera crítica ao presente da humanidade, corrompido pelo estalido de valores que corrompem e degradam aquela universal capacidade de empatia que Waters acreditava estar presente em toda a humanidade. A canção “Us and Them” (“Nós e eles”, em tradução livre) sintetiza todos os dilemas interpretados pelo Pink Floyd no “Dark Side”. “Um lamento pela eterna tendência da raça humana a se dividir em facções opostas” (Harris: p. 10). Esse lamento, contudo, também é um grito desesperado por fazer reconhecer que, embora alguns sejam generais e outros os soldados que, no campo de batalha, tombam nas linhas de frente, “nós e eles, somos apenas homens comuns”.
Essa abordagem dos temas universais da humanidade revestem o Pink Floyd, e em especial as letras de Waters, de uma nobreza sem par. Pois descrevem sentimentos e dilemas afetivos e sociais que aflingem todos os indivíduos na cotidianeidade de suas vidas comuns. Evidentemente, numa postagem de blog o que menos se deseja são arroubos acadêmicos, deve-se por isso evitar a exegese exaustiva de conceitos, a fim de não exaurir a atenção do leitor. No entanto, dada a importância do Pink Floyd para a cultura de massas, é relevante colocar o dedo na ferida e incomodar os menos interessados em reflexão acurada. Acredito ser possível atribuir analiticamente ao “Dark side” (e a algumas outras canções do Pink Floyd), uma reflexão a respeito da Alienação. Sem precisão conceitual, o tema da alienação pode ser identificado como uma contradição entre os indivíduos e a dureza da vida cotidiana. Evidentemente, essa não é uma afirmação categórica de que o Pink Floyd teria pensado nesse conceito ao conceber seu álbum mais bem sucedido, mas pretendo desdobrar daí uma inflexão a partir do entendimento de que as grandes obra de arte são também tentativas de encarar a realidade circundante. Dessa maneira, as canções do Pink Floyd têm uma clara intenção voltada para a valorização da individualidade frente a banalidade do trabalho, a inclemência do mercado financeiro e a tirania dos que pretendem impor domínio sobre o outro. Exatamente por isso, apesar de críticas, ao contrário do que ocorre com o “Is this the life we really Want?”, as canções do “Dark Side” não são amargas ou melancólicas. Nelas está depositado todo poder exortativo de melodias cálidas, procurando induzir a empatia, a esperança e o sentimento de que estamos vendendo nossas vidas, alugando nossas subjetividades e banalizando a interação entre os nossos semelhantes e, entretanto, permanecemos descontentes com o estado atual das coisas.

Essas são ideias introdutórias que pretendo explorar atentamente em textos futuros. É uma tentativa de abordar a partir do Pink Floyd temas caros a todos os indivíduos desencantados com os dias atuais. Mas é preciso lembrar sempre que teorias, poemas e canções formam apenas o primeiro estágio de um projeto realmente transformador, é preciso encarar os fatos e transformar a realidade à imagem e semelhança das elevadas esperanças que trazemos no espírito.

[1] HARRIS, John: The Dark Side of The moon, os bastidores da obra prima do Pink Floyd, tradução de Roberto Muggiati, Rio de Janeiro, Jorge Jahar Editor, 2006.


Por Bernardo Reis para o Blog Onhas
Sair da versão mobile