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A Confraria Floydstock entrevista Fabio Reis do Mundo Metal

Os admiradores do rock e mais ainda do metal, antenados nas redes sociais, sobretudo no Facebook, já devem ter passado pela página e grupo Mundo Metal, alimentados por seu administrador Fabio Reis com diversas informações e opiniões sobre o gênero com mais “tentáculos” do universo da Música, o Heavy Metal, nascido e proliferado desde os tempos primais do Black Sabbath, se ramificando e evoluindo desde então.

A Confraria Floydstock bateu um papo com Fabio Reis e você pode ler nas linhas abaixo:

Bom dia, Fabio, primeiramente obrigado por conversar conosco. Vamos lá…

1 – Como o rock e/ou heavy metal entrou na sua vida?

Bom dia André. Primeiro foi o Rock, meus pais viveram nos anos 60, época da Jovem Guarda, Beatlemania e etc, então desde muito pequeno o som que rolava em casa sempre foi o Rock and Roll, minhas primeiras lembranças musicais são ouvindo Beatles, Elvis e Queen. No finalzinho dos anos 80, quando o Guns ‘N Roses estourou mundialmente e virou febre, calhou de ser o momento em que eu estava me interessando de verdade por música, aí por influência de alguns amigos mais velhos que eu, acabei adquirindo o LP do Apetite For Destruction. Depois disso, pra pular pro Iron Maiden e outras mais pesadas foi bem rápido.

2 –  Fale sobre a sua página, o Mundo Metal, como foi a ideia de se dedicar à divulgação maciça de conteúdos sobre o metal e quais os maiores prós e contras que você encontra?

A página nasceu por acaso, eu não gostava muito de redes sociais e tinha certa resistência quanto a elas, mas acabei criando uma conta no Facebook por livre e espontânea pressão dos amigos (risos). Um desses amigos me adicionou em um grupo (o Resistência Metal) e quando vi um espaço onde vários headbangers podiam conversar, debater sobre música e indicar bandas e álbuns, a rede social ficou bem mais atraente pra mim, acabei sendo convidado pra ser administrador de um outro grupo, depois do próprio Resistência Metal e, um pouco mais tarde, criei o meu próprio grupo, o Mundo Metal. Era apenas um grupo, não era página, só que eu percebi que a minha equipe de administradores era formada por caras que tinham muito conhecimento e vivência no meio do Metal, aí veio a idéia de criar um conteúdo mais sério, voltado realmente para informação e a divulgação de bandas.
O maior pró é poder ver que realmente existem pessoas que se interessam pelo conteúdo, não tem preço ver aquele disco mais obscuro ou aquela banda menos reconhecida sendo ouvida e elogiada por que você escreveu uma análise/crítica à respeito do trabalho dos caras. Sobre contras, tem vários, mas eu nem me preocupo com eles, penso que se uma única pessoa parar pra ler um texto de opinião ou uma resenha na página e isso abrir um pouco a mente dela, o nosso trabalho já foi recompensado. No começo era assim mesmo, era um ou outro que lia, mas a gente não desistiu e, hoje, o alcance da página é bem legal e atingimos um número grande de pessoas.

3 – Quem lhe conhece e lê seus textos sabe que você não se apega à convenções e nem julga bandas pelo “tamanho da camisa”, criticando quando acha por bem mesmo as mais tradicionais. Como você vê a relação do fã de metal com as bandas consagradas?

Eu tenho o seguinte pensamento: quando você vai analisar um álbum você tem que esquecer o logotipo que está estampado na capa. Não é por que uma banda possui um passado glorioso, que tudo que ela lançar será ótimo, as bandas vivem períodos de altos e baixos. Cada disco é um disco e não adianta nada você ouvir um lançamento do Iron Maiden tendo como referência o Powerslave, essa época já passou e hoje a realidade é outra. Eu escuto os álbuns novos com visão crítica e me apoio nos outros lançamentos do momento. Citando como exemplo o próprio Maiden, quando o Powerslave foi lançado, foi rapidamente alçado ao posto de um dos grandes discos daquela época, então quando o The Book Of Souls chegou às lojas eu ouvi e analisei o disco com esse pensamento, comparando com o que está sendo lançado hoje em dia. 
A relação do fã já é totalmente passional, geralmente ele tem muita dificuldade em ler uma crítica referente a sua banda do coração. Pro fã é complicado ler que o álbum de uma banda novata é melhor que o novo trabalho do Metallica ou do Judas Priest, mas muitas vezes isso é uma realidade. Eu, no papel de analista, não posso deixar de analisar friamente questões como musicalidade, técnica, criatividade, relevância, produção e etc, não posso simplesmente escrever o que as pessoas querem ler, tenho que ser o mais justo e coerente possível com o material que eu estou ouvindo. Mesmo que isso me traga uma porção de haters inconformados comentando na página, será sempre assim que vou agir, não ligo pra nada disso, o meu único compromisso é escrever as minhas reais impressões sobre um álbum ou tema, doa a quem doer.

4 – E quanto às bandas novas ou fora do mainstream, como você enxerga a valorização do ouvinte de metal para com elas?

Era mais complicado antes, hoje tem melhorado um pouco, mas ainda assim, o público em geral tem muita resistência com o novo. O lado passional que mencionei acaba interferindo bastante no julgamento, as pessoas querem ver as suas bandas preferidas sendo ovacionadas e, se por um acaso, alguém resolver escrever que um disco de uma banda nova é melhor que um lançado por um “grandão” da cena, os fãs vão escutar esse registro cheio de ressalvas e, na maioria das vezes, já procurando elementos pra poder contestar a sua análise.

É como eu disse antes, não posso me preocupar com isso. Ouço, analiso da melhor forma possível e passo as minhas impressões, se vão concordar ou não é outra história. Uma resenha não é uma verdade absoluta, é apenas a opinião embasada de alguém, se eu disser que um disco é fraco e der uma nota baixa, nada te impede de escutar esse mesmo disco e achar ele maravilhoso, será apenas uma opinião diferente da minha. As pessoas tem um pouco de dificuldade em entender isso.

5 – Para você qual é o tamanho e o papel do heavy metal hoje em dia no mundo, musical culturalmente falando?

Na minha opinião, bem menor do que já foi. O Heavy Metal teve um momento de ápice ali no final dos anos 80 e início dos 90, onde a grande mídia estava aberta ao gênero e explorando sua capacidade lucrativa. Foi nessa época que nomes como Metallica, Iron Maiden, Pantera e tantas outras bandas se tornaram gigantescas, hoje não existe mais essa abertura da grande mídia, o estilo retornou as suas origens, ao underground. Veja bem, Isso não significa que o Metal tenha se tornado menor, o número de bandas novas é enorme, a quantidade de ótimos lançamentos é maior ainda, o que ocorre é que hoje é muito difícil uma banda nova conseguir se destacar fora da imprensa especializada. Costumo dizer que hoje em dia, vivemos um momento excepcional em termos de lançamentos, mas que apenas os que realmente se interessam e procuram é que estão aproveitando essa fase. Você não vai mais ligar a televisão ou sintonizar numa FM qualquer e ouvir uma banda nova de Metal tocando, mas se você correr atrás, há uma quantidade exorbitante dessas bandas prontas pra te maravilhar. 

6 – Você também é conhecido por suas firmes opiniões políticas e recentemente escrevera sobre o preconceito dos fãs de metal ante às bandas que deixam entrever seus posicionamentos de esquerda ou direita. Você acha que o radicalismo do fã atrapalha sua apreciação da música?

Os fãs, principalmente os mais novos que começaram a ouvir música nessa época em que a polarização política é enorme, estão confundindo um pouco as coisas. Não apenas na música, mas em quase todos os assuntos, as pessoas direcionam os temas para a política e, na minha opinião, isso não condiz em absolutamente nada com o que o Heavy Metal sempre foi. O estilo sempre foi caracterizado por ser livre de amarras, livre de preconceitos e, principalmente, liberto de ideologias. O Metal é liberdade pura e quando alguém te aponta o dedo na cara dizendo que pra você poder curtir o gênero, você precisa compartilhar de determinada posição política ou religiosa, essa pessoa automaticamente está dando um tiro no pé e sendo contra o que o Metal é em suas características primais. O estilo não é de esquerda, não é de direita, ele não é partidário. O Metal não abraça ideologia alguma, quem faz isso são as pessoas. O Violator pode possuir o seu viés esquerdista e o Megadeth pode defender as suas pautas de direita, mas o Metal segue apartidário e livre. As bandas tem total liberdade pra expor o que desejarem em suas músicas e os fãs escolhem se vão ouvir ou não. Simples assim.

7 – Como você percebe a cena nacional?

Evoluindo em alguns pontos, regredindo em alguns e estagnada em muitos outros. Bandas ótimas nós sempre tivemos, isso não é novidade pra ninguém, o problema é a parte estrutural da coisa. Se eu for enumerar os erros e apontar onde é preciso melhorar, vou acabar escrevendo um texto gigantesco aqui. Esse é um tema que eu gosto bastante de dissertar e já fiz isso algumas vezes, mas é sempre como pisar em ovos, por que sempre alguém se sente ofendido. Vou apenas dizer que os problemas não tem apenas uma causa, não é apenas o produtor que dá calote nos músicos o culpado, não são apenas as casas que não oferecem estrutura adequada, não é apenas a valorização das bandas cover em detrimento das autorais, não são apenas as muitas bandas despreparadas e tão pouco o público desinteressado. É um mix de tudo isso. Cada setor tem problemas a serem corrigidos, inclusive a imprensa, e enquanto um ficar jogando a culpa em cima do outro e não olhar pro próprio rabo, as coisas não vão melhorar. O cena nacional tem um potencial enorme e não vai pra frente por que não existe uma conscientização coletiva que todos precisam trabalhar juntos pra melhorá-la. 

8 – Para quem deseja ingressar no mundo das bandas de metal e montar uma banda do zero, qual caminho seguir desde o início? Que conselho você daria?

Primeiro de tudo, estude o seu instrumento, ensaie muito e não tenha pressa de gravar. Hoje existem tantas bandas boas surgindo que ninguém vai parar pra te ouvir se você não for realmente bom ou não possuir algum tipo de diferencial que chame a atenção do público. Costumo perguntar pros músicos que conheço o seguinte: você ouviria, se tornaria fã e gastaria dinheiro comprando material de uma banda que apresenta o que você apresenta? Se a resposta for sim, você está no caminho certo.

9 – Ainda sobre as bandas tradicionais, você muitas vezes cita o “renascimento” do Accept em 2009 e sua não dependência de seus sucessos oitentistas como referência de banda moderna e atual, mesmo sendo antiga. Que outras bandas você pode citar que segue esse mesmo processo e quais as bandas que você lamenta por não fazê-lo?

Essa pergunta é muito boa! (risos). O Accept pra mim é uma banda fora da curva, pois trocaram talvez a sua principal peça (o vocalista) e o resultado foi muito melhor do que qualquer um poderia esperar. Os caras realmente se reinventaram e são um dos pouquíssimos nomes que vejo lançando discos que contenham músicas com potencial 100% genuíno pra se tornarem clássicos. Existem alguns outros nomes da velha guarda que também vem lançando álbuns de qualidade inegável, cito o Saxon, Satan, Riot, Overkill, Testament e Anthrax, só pra não deixar a lista muito longa. O novo do Judas Priest também me surpreendeu bastante, não posso deixar de mencionar. Mas existem muitas outras bandas que ainda dá orgulho de escutar os trabalhos mais recentes.
As que não estão dando muito orgulho… (risos). Bom, vou logo na jugular e, portanto, deixar muita gente triste, mas pra mim, Iron Maiden e Metallica encabeçam essa lista, infelizmente. E digo infelizmente por que acho que ambas tem condições de lançar álbuns muito melhores do que os que tem sido lançados. Mas respeito a história e reconheço a importância de ambas para o estilo.

10 – O que você mais tem ouvido no momento, nacional e internacional? O que sugere?

Nossa, eu escuto muita coisa. Primeiro vou citar algumas bandas novas de Heavy Metal tradicional que tem feito a minha cabeça. Nomes como Enforcer, Air Raid, Ambush, Visigoth e Night Demon me fizeram voltar no tempo com seus discos. Já das nacionais, eu gosto bastante de bandas como Woslom, Vorgok, Jackdevil, Melanie Klain e Fire Strike. No ano passado eu ouvi alguns trabalhos que me fascinaram, os debuts do Lor, Witherfall e o mais recente do Havok, esse ano apreciei muito os lançamentos de Varathron, Solstice e Orphaned Land. Tem muita coisa boa sendo lançada, é só ficar de olho lá na página que geralmente a gente faz essas indicações.

Muito obrigado por conceder essa entrevista à Confraria Floydstck!

Eu que agradeço! Estamos sempre às ordens, espero ter contribuído um pouco com minhas idéias.


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