Película traz enfoque nas origens do grupo formado por Jimmy Page, rapidamente catapultado ao estrelato.
Por Renato Azambuja.
O Led Zeppelin foi tão rígido no controle de tudo o que a banda já produziu – em expedientes que não raramente envolviam alguns crânios (de proprietários de lojas de discos que faziam vista grossa para a pirataria e de videomakers amadores nos shows ao vivo da banda) rachados aqui e ali pelas mãos nuas do truculento Peter Grant – que a espontaneidade foge das câmeras em seu mais novo documentário, Becoming Led Zeppelin, como o diabo da cruz.
Formação verticalizada: a “boyband” de Jimmy Page
Em sua crítica ao lançamento, André Barcinski compara o início do Led à formação de uma boyband, o que pode soar exagerado. Mas quando nos damos conta, a partir dos relatos trazidos pelo próprio documentário, de que por boa parte de sua vida as relações profissionais de Jimmy Page se deram de forma verticalizada e não em grupo, sua reação natural ao colapso do Yardbirds foi reproduzir esse modus operandi ‘contratando’ membros para seu novo empreendimento.
Além disso, as inovações no rock vinham sendo encabeçadas pelos guitarristas. Page era amigo de Eric Clapton e Jeff Beck. Também fica claro já de início que não havia uma disputa pela direção artística do grupo por parte dos demais membros quando Robert Plant admite não se importar que fosse um mod ou roqueiro, desde que pudesse cantar e ser visto. John Bonham, por sua vez, tocava numa banda de folk rock e John Paul Jones estava satisfeito com a carreira nos estúdios, tendo partido da esposa o pedido para que se associasse a Page.
Falhas visuais: stop motion e arquivos desconexos em Becoming Led Zeppelin
De qualquer forma, a sensação de deslocamento é tão incômoda quando junta o portento sonoro do Zeppelin a imagens broxantes de casais aleatórios de hippies saudando o pôr do sol, ou a sequências repetidas da plateia dançando um twist capenga, que me veio à memória a atuação de Marlon Brando e Vivien Leigh em Um Bonde Chamado Desejo – Brando representando a vanguarda do método Stanislavski, que chegava para desbancar a escola inglesa de tradição clássica, tão bem caricaturada pela trágica e afetada Blanche Dubois. O ponto alto (de tão baixo) do pastiche é a interação dos Zeppelins remanescentes com a voz do finado Bonham.
O fantasma de Peter Grant e o medo do contrafeitiço
A coisa é tão esquizofrênica que é difícil entender o que Bernard MacMahon, o diretor do documentário, temia mais ao suspeitar que pudesse sem querer estar revelando demais a partir da Pedra de Roseta de plástico que é Becoming Led Zeppelin: o implacável punho de Peter Grant vindo do além ou alguma mandinga do pupilo de Aleister Crowley. A julgar pela expressão de satisfação ao confirmar que “as imagens em movimento” que registraram tristemente o festival de Bath jamais colocariam em xeque o legado do Led Zeppelin por obra de algum contrafeitiço invejoso, eu me arriscaria a dizer que a maior ameaça partiu de Page.
Foguetes espaciais em lançamento, stop motion com fotos de estúdio em preto e branco, tomadas de aeroportos com seus funcionários carregando malas que ninguém poderia provar pertencer aos membros da banda pois a essa altura o desespero por preencher a trilha com o escasso material disponível já havia sucumbido à tentação de inserir equipes de estúdio envolvidas na gravação de alguma coletânea de Neil Sedaka. E dê-lhe sequências instrumentais fora de sincronia com a música de fundo, e até – por que não? – sequências de vídeo que avançam e recuam (eu juro, confere lá a 1h25min), afinal de contas ninguém mais presta atenção na salada visual depois de certo ponto.
O show de taxidermia com descaso total envolve ainda uma foto de Jones em zoom, e mais à frente a mesma foto espelhada em tela cheia, enquanto o fantasminha de Bonham de tempos em tempos aparece para a frustração geral da nação. Se a intenção era a desconstrução do conceito de documentário com o aval do bruxo paranoico, vá lá. Missão cumprida!
“Becoming Led Zeppelin”, Legado vs. documentário: uma oportunidade perdida
É chocante comparar a quantidade de material à disposição de Peter Jackson para a confecção do mais recente documentário dos Beatles, e constatar como esse material nos permitiu acompanhar a criação de Get Back, a canção que dá nome ao filme, desde os primeiros acordes até o take definitivo, enquanto para comprovar que o pacto de Page com o cachorro preto não incluiu as mágicas de estúdio que nos deram Whole Lotta Love, temos apenas mais um stop motion em preto e branco em que somos compelidos a nos apiedar de um inconsolável, quase choroso Eddie Kramer, que rói os nós dos dedos em inconformismo ao se dar conta de que, de seu, o segundo álbum do Led Zeppelin só terá o nome nos créditos de produção.
Enfim, ponto para a genialidade de Paul McCartney, que tanto insistiu em fazer registros em vídeo, e para a longevidade dos Beatles.
E, é claro: ponto para o Led Zeppelin, pois sem dúvida toda a superproteção acabou por conferir aos membros da banda a liberdade necessária para a concepção de uma obra eterna, mesmo que um pouco mais analógica que a de Liverpool!










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