Cantor e compositor refletiu sobre a “progressiva e crescente industrialização da platéia como matéria-prima”
O pianista, cantor e compositor brasileiro, Guilherme Arantes, influente artista da MPB e outrora integrante da banda prog nacional, Moto Perpétuo, usou a sua conta no Facebook para refletir sobre a evolução da indústria musical, desde seus primórdios até a atualidade, destacando a crescente comercialização e a busca por lucratividade. Ele observa como o público se tornou a principal fonte de renda, impulsionado por um mercado financeiro globalizado e ávido por entretenimento.
No texto, com imagem ilustrando um concerto gigantesco da banda prog setentista Emerson, Lake & Palmer, Guilherme traz a reflexão sobre o “Showbiz monumental”, ou seja, a indústria musical se transformando em um grande negócio, com o público como matéria-prima e o ingresso como um ativo financeiro valioso.
Ademais, o músico prossegue citando o capitalismo e como este encontrara no entretenimento uma fonte lucrativa, explorando o desejo do público por diversão.
Arantes compara ainda os seus primórdios, quando acompanhava shows com estruturas precárias, até os dias atuais, com cada vez mais megaeventos em arenas gigantescas, onde o público deixou de ser coadjuvante e se tornou protagonista, ou o próprio produto, com sua presença massiva sendo o principal atrativo, seduzido por uma vasta tecnologia que permite criar espetáculos impactantes mesmo com pouco conteúdo artístico, catapultados por estratégias de marketing crescentemente eficientes.
Leia a publicação na íntegra:
“Desde muito jovem, eu testemunho o surgimento de um “showbiz” monumental, a progressiva e crescente industrialização da platéia como matéria-prima.
Hoje, o ingresso de show é um “ativo financeiro” poderoso, com a entrada de grupos e fundos investidores vislumbrando lucros e vantagens fiscais inimagináveis no passado.
As platéias são verdadeiros enxames de insetos obreiros, fabricadores infalíveis de dinheiro pulverizado, um ramo com atrativos muito peculiares e especiais no mercado financeiro mundial.
O capitalismo está de olho !
O mundo quer se divertir, e oferece público para tudo.
Tudo.
Nos primórdios, idolos incontestáveis como os incomparáveis Beatles, sofreram com a precariedade estrutural, se esgoelando no Shea Stadium, com seus amplificadores despreparados para a gritaria histérica de dezenas de milhares…
No princípio, somente nomes muito diferenciados eram levados a essa escala gigantesca… como nesta foto da tournée consagradora de meus idolos Keith Emerson, Greg Lake e Carl Palmer, músicos incomparáveis numa Era de Ouro.
Eu sempre sonhei com a música, mas nunca me impressionei com essas escalas de multidões e nem me vi nessa monumentalidade do showbiz.
Hoje, testemunhamos a absoluta proliferação dos espetáculos musicais nessa escala apocalíptica.
Já existem arenas que se encaminham para reunir um milhão de expectadores para um único artista, e a estrela do show fica do tamanho de uma pulga, sendo visível apenas pelos telões…
Que escala é esta ?
Não será nenhuma surpresa o dia em que qualquer coisa neste mundo puder lotar tournées em estádios de futebol, em arenas consagradoras, gerando toneladas de dinheiro, apenas (ou majoritariamente, predominantemente) com a força do marketing.
Parece até que o verdadeiro show é a performance das multidões em ação… e o publico deixando de ser coadjuvante, passando a ser protagonista…
A tecnologia também ajuda a enganar e é possível hoje gerar uma potencia eficiente a partir do “quase nada” em cena no palco…
É, no mínimo, sociologicamente curioso esse processo.
Não critico, nem condeno nada.
Só acho interessante observar.
Eu continuo sabendo que não nasci nem para reverenciar e nem para participar desse fenômeno, não sei porque.“









