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King Crimson – Entrevista com Robert Fripp: ‘Eu sou um parceiro de trabalho muito difícil’

O guitarrista influenciou David Bowie e Peter Gabriel, mas foi apenas o último revival de sua banda, que fez surgir seu lado feliz

A felicidade não é tudo o que promete ser. Pelo menos de acordo com Robert Fripp. No início de 2012, tendo desistido de tocar ao vivo, ele se viu em uma posição curiosa. “Comecei a ser feliz, pessoalmente feliz“, explica ele.



Mas enquanto o paraíso é um lugar maravilhoso para se estar, nada acontece. Minha esposa me disse que eu corria o risco de ficar sem graça. Então, o que estou fazendo agora era em parte uma necessidade pessoal. Quando você está feliz, é hora de arrancar o espinho.

A resposta de Fripp foi tentar coisas que ele não teria feito de outra forma. Tendo de certa maneira se aposentado da vida pública, a primeira manifestação visível beirou o perverso: uma aparição no seriado de TV All Star Mr & Mrs, com a esposa, Toyah Wilcox.

O segunda foi o renascimento de sua banda King Crimson

Fundada em 1968, Crimson eram líderes no que ficou conhecido como rock progressivo. A intensidade vertiginosa de seu trabalho gravado – uma fusão densa de freak-rock, jazz, texturas ambientais e fugas neoclássicas – levou a banda a lugares que a maioria era simplesmente incapaz de alcançar.

No centro das coisas estava Fripp, um guitarrista de furor extraordinário, encerrando uma técnica magistral para a improvisação. Os resultados foram muitas vezes devastadores. Álbuns como In The Court of the Crimson King e Larks’ Tongues In Aspic alcançaram um status quase lendário.



Mas o King Crimson também trouxe uma certa reputação. Ou, mais apropriadamente, Fripp trouxe.

Com uma formação cuja única constante era um estado de mudança, alguns membros da banda o descreveram como difícil, um autocrata ameaçador com padrões exigentes.

O baterista Bill Bruford certa vez o chamou de amálgama de Stalin, Gandhi e Marquês de Sade. A imprensa musical em geral também se apressou em mergulhar, admirando a música, mas sendo menos efusiva sobre sua força orientadora. Em 1974, quando estavam prestes a se tornar tão grandes quanto o Pink Floyd, Fripp dissolveu a banda. A turnê nunca foi divertida, declarou ele, acrescentando que o King Crimson estava “completamente encerrado para todo o sempre“.

Diferenças entre o artista e a pessoa

Pessoalmente, Fripp parece ter pouca semelhança com a caricatura mítica dos anos 70. Ele é eloqüente, falante e freqüentemente engraçado, respondendo minhas perguntas com o tipo de rigor intelectual – e capacidade alarmante de fixar histórias em datas exatas – que você simplesmente não encontra na maioria dos músicos de rock. Estamos sentados na varanda de um café, atravessando a rua em frente a sua casa de fachada Georgiana em uma esquina refinada de Worcestershire. Ele parece imaculado em colete, camisa e gravata estampada, tomando chá e apontando o prédio a algumas portas de distância que abriga sua extensa biblioteca.



Uma das facetas mais impressionantes de Fripp é sua absoluta sinceridade. “Quando eu leio entrevistas com antigos parceiros do King Crimson, eles sugerem que a dificuldade está em mim”, ele propõe em seu sotaque West Country. “E eu concordo com isso.

Eu sou uma pessoa muito difícil de se trabalhar, porque no King Crimson havia um estatuto social a ser honrado, voltando a ’69. E se o que estiver disponível não atender ao que eu entendo como um compromisso com a essência do Crimson, então essa lacuna tem que ser satisfeita por alguém. E isso recairia sobre mim. Então esse não é um lugar confortável.

King Crimson em 1970

Fripp ficou tão desiludido depois da primeira divisão que ele se retirou da música logo depois: “Tudo estava louco. Mas você não pode dizer às pessoas – músicos, empresários, gravadoras e o resto – que o enorme sucesso comercial é realmente algo insano. Então saí e bati em retirada. E quando ressurgi, não tive a menor intenção de voltar pra isso.



Mas voltar para isso foi o que ele fez. Outra vertente definidora da carreira de Fripp tem sido seu trabalho colaborativo. Talvez o fã mais famoso seja David Bowie, que o convocou para tocar “rock’n roll complicado” no álbum “Heroes” de 1977.

“HEROES”

A faixa-título, uma das músicas mais adoradas de Bowie, apresenta algumas das guitarras mais expressivas da carreira de Fripp. Mais tarde, ele reprisou seu papel em Scary Monsters, adicionando conduções convulsivas a destaques como Fashion e It’s No Game. Peter Gabriel, Brian Eno, Daryl Hall, Blondie e Talking Heads (é dele o ritmo afro em ‘I Zimbra’) foram apenas algumas das pessoas que procuraram os seus serviços nos anos 70 e início dos anos 80. Tendo se mudado para Nova York na época do punk, Fripp descobriu que “eu cada vez mais fui sugado de volta para a vida para a qual nunca pretendi voltar”.

As décadas seguintes nem sempre foram fáceis. Fripp gravou álbuns solo e reviveu King Crimson em vários formatos ao longo dos anos, incluindo uma série de versões fragmentadas sob o nome “ProjeKCts”. Mas sua carreira profissional foi prejudicada por uma antiga disputa legal com a Universal, pelos direitos e royalties, que ele remonta a 1991. Isso em particular foi o resultado de ter sido enganado pelos homens do dinheiro em sua antiga gravadora, EG, nos Anos 70. Fripp resume sua carreira profissional em uma palavra: “miserável“.

Ele está explicando os detalhes mais sutis dessa discussão prolongada quando de repente avista sua outra metade, emergindo da entrada de sua casa. Toyah acena, ele acena e até tira a câmera para tirar uma foto.



Ah, minha adorável esposa, dirigindo meu carro“, ele reflete, quase para si mesmo. “Eu devo ter feito algo certo em ter Toyah como minha esposa. Ela é muito mais afiada do que eu, ela tem uma inteligência crítica muito boa.

Além de sua amada domesticidade, a vida de Fripp tem um lado positivo

Sua perseguição corporativa obstinada foi finalmente resolvida no ano passado, quando ele recebeu um acordo extrajudicial da Universal. Parece que um peso lhe foi retirado? “Sim, é tão simplista quanto isso“, diz ele. “Nos últimos 29 anos, o meu trabalho principal tem sido com estudantes de guitarra, com [cursos de guitarra capitaneados por Fripp] Guitar Craft, Guitar Circle e The Orchestra Of Crafty Guitarists. Eu nem sequer considerei o trabalho criativo de forma profissional até que as questões profissionais fossem resolvidas.

O resultado desse novo começo foi montar uma oitava encarnação do King Crimson. Foi uma ideia que surgiu pela primeira vez no verão de 2013, de forma caracteristicamente precisa. Fripp imaginou uma formação anglo-americana de sete peças desta vez, com (por mais improvável que pareça) nada menos que três bateristas. Todos os envolvidos participaram de formações relacionadas ao Crimson no passado, incluindo o renomado baixista Tony Levin e o saxofonista Mel Collins, que se juntaram ao grupo em 1970.

Tudo acontece às mil maravilhas até agora. King Crimson completou recentemente uma turnê de grande sucesso nos EUA e, estando tudo bem, há mais por vir.



É o primeiro Crimson, onde não sinto qualquer animosidade ou ressentimento de pelo menos um membro da banda”, diz Fripp. “Exceto, sem dúvida, que a responsabilidade disso cai aos meus pés. Este é um grupo desde o começo, o dinheiro é dividido igualmente.

Então, vamos vê-los tocar aqui logo? “Eu discuti a possibilidade de trabalhar na Europa no próximo ano, incluindo o Reino Unido em setembro. Ainda há problemas com a qualidade dos locais, mas está sendo analisado.

Com a idade de 68 anos, Fripp finalmente parece estar se dirigindo ao potencial não realizado que tudo isso representa para ele. “Eu estava procurando uma sensação de conclusão em King Crimson”, ele admite, “de modo que, se a última apresentação que fizéssemos fosse em Seattle em outubro, eu seria capaz de me desapegar. Meu interesse pessoal é chegar a uma forma de conclusão e satisfação com essa banda.

Via Telegraph (2014)



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